domingo, setembro 17, 2017

Ascenção e queda de Talisca

Regressaram as competições europeias – que sempre têm o seu encanto especial ainda que frequentemente efémero – e o meio da semana viu-se preenchido com jogos e mais jogos para deleite de quem vibra, por dentro ou por fora, com estes confrontos das nossas equipas perante oponentes estrangeiros. A grande nota da participação portuguesa vai para o Sporting de Braga que, pela primeira vez na sua história, venceu um adversário alemão na Alemanha e para o Sporting, o Sporting propriamente dito, que pela primeira vez na sua história, venceu um adversário grego na Grécia. Estão, assim, os dois Sportings de parabéns pela eficácia com que iniciaram os respectivos percursos europeus.

Benfica e FC Porto, que ainda não tinham perdido nenhum jogo neste início de temporada em Portugal, perderam com estrondo os seus desafios internacionais para surpresa e consternação das suas massas adeptas. Também é verdade que nem o FC Porto tinha ainda jogado nesta época com os turcos do Besiktas nem o Benfica tinha ainda jogado com os moscovitas do CSKA, equipas da segunda linha europeia – ou terceira? – mas que em Portugal discutiriam certamente o título em pé de igualdades com os três grandes do costume.

O que a primeira jornada das provas da UEFA trouxe de substancialmente inesperado ao panorama retórico do nosso futebol foi a surpreendente reabilitação de Talisca aos olhos dos benfiquistas e a sua queda em desgraça na consideração dos portistas. E, também, por respeitosa solidariedade institucional, no apreço dos sportinguistas. Tudo porque o brasileiro emprestado pelo Benfica ao Besiktas marcou um golo a Iker Casillas. É isto o que o futebol gera. Súbitas alterações no clima provocadas por um mísero golo colocam em causa argumentos de outrora e inclinações do passado. 
Como se não bastasse a dramática alteração do estatuto interno de Talisca logo surgiria um novo episódio capaz de estilhaçar corações quando o simpático Aboubakar resolveu ir passar um bom bocado à cabina do Besiktas consumado que estava o jogo e o resultado no estádio do Dragão. Imediatamente emitiu o FC Porto um aparatoso comunicado lamentando a "falta de noção" da RTP. É verdade que a RTP nada – rigorosamente nada – teve a ver com o caso mas trata-se aqui de uma nova forma de comunicar por código. O que, na realidade, o FC Porto queria dizer é que lamentava a "falta de noção" do seu risonho jogador camaronês mas acabou por ser a televisão estatal a apanhar por tabela. Os decifradores desunham-se para entender estas subtilezas da arte da comunicação.
No entanto, e porque o amor é como o vento, já foi designado um "novo" Talisca para entreter os corações que batem a compasso no Dragão e no Altis. Trata-se de Nuno Gomes. E como Nuno Gomes já não pode marcar golos nem ao Porto nem ao Sporting a paixão tem tudo para durar. Se o Nuno Gomes consentir, claro."



Fonte: Leonor Pinhão @ Record


sábado, setembro 16, 2017

Dois maus ensaios gerais

De sexta-feira a terça-feira, em quatro dias apenas, os adeptos do Benfica viram-se forçados a mudar de ideias e a conformar-se com as realidades práticas que os jogos com o Portimonense e com o CSKA na Luz tão dramaticamente evidenciaram. O vídeo-árbitro é, afinal, um posto do progresso do futebol português e, pelo que se viu com os russos, ainda não vai ser este ano que o Benfica vai voltar a ganhar a mais importante prova do futebol europeu. Sabendo-se que as verdades nesta indústria não duram mais do que uma semana esperam agora os benfiquistas pelo desfecho do jogo desta tarde no Bessa para poderem, pelo menos, confiar num dos mais velhos axiomas do jogo da bola e dos espetáculos teatrais. Aquele que reza ser um redobrado mau ensaio geral a melhor dupla garantia para uma performance de estalo. 

Foi com este espírito, otimista, que o público da Luz abandonou o recinto na noite da penúltima sexta-feira, depois de André Almeida ter marcado o golo da sua vida e de o vídeo-árbitro ter anulado corretamente o golo incorreto com que os algarvios chegaram a gelar a casa dos tetracampeões nacionais. Este jogo foi logo considerado como um mau ensaio geral nas vésperas do jogo com CSKA, o que acabava por ser uma excelente notícia em função da crendice popular. Crentes em que a coisa só podia correr lindamente com os moscovitas, os espectadores da Luz regressaram aos seus lugares quatro dias depois para serem surpreendidos por mais um mau ensaio geral. A boa notícia, para quem se fia nisto, é que depois de dois maus ensaios gerais nada obstará cientificamente a que o Benfica acerte com as marcações e faça hoje uma grande exibição com um resultado correspondente na casa do Boavista. 

É bom que o público vá acreditando nestas tradições porque são lendas como estas que fornecem sal e pimenta às discussões anteriores e posteriores a cada ensaio geral. Mas, tal como é bom que os adeptos confiem, é péssimo que os artistas – jogadores e treinadores… - alinhem em semelhantes disparates. Nesta fase prematura da temporada, o Benfica precisa de racionalidade a todo o custo. A verificar-se um terceiro mau ensaio geral não faltará quem, por exemplo, reclame o regresso do emprestado Talisca no mercado de inverno. Precisamente o mesmo Talisca que no ano passado foi vituperado por se ter atrevido a marcar um golo ao Benfica na Luz. Alguma coisa se deve ter passado com Talisca esta semana porque, de repente, registou-se uma mudança de opiniões sobre os méritos do brasileiro exilado na Turquia. Ai passou-se, passou-se… 



Outras Histórias 
Uma grande lição no Dragão  
Aboubakar planando muito acima destas odientas questiúnculas 
Naquele minuto fatídico em que Ryan Babel assinou o terceiro golo do Besiktas no Estádio do Dragão aconteceu, certamente, que milhões de benfiquistas espalhados pelo mundo suspiraram fundo e disseram para com os seus botões. "Pronto! Agora já não podem gozar connosco!" É esta a triste cultura de rivalidade que domina o futebol. 

As tristezas de uns são as alegrias dos outros e vice-versa. Que diferença anímica faz para o povo ignaro levar 2, como levou o Benfica do CSKA, ou levar 3, como levou o FC Porto do Besiktas! Não há fair-play nestas coisas, não há solidariedade nem, muito menos, patriotismo. Uma lástima. Saúde-se, portanto, o simpático profissional camaronês Aboubakar que, planando muito acima destas odientas questiúnculas, visitou alegremente o não menos balneário do Besiktas no Dragão confraternizando com os seus antigos colegas. Antes do jogo? Ou depois do jogo? Não importa. É para dizer que foi antes do jogo? Ah, bom, então foi antes do jogo, não liguem à propaganda.



Fonte: Leonor Pinhão @ Correio da manha

quinta-feira, setembro 14, 2017

História do século XXI, primeiro volume

É difícil não só pelo escasso acesso às fontes, cuja destruição foi quase total, mas também porque só há cerca de dez anos deixámos de fazer fogo com pedras, o que prejudica bastante a historiografia. Quem precisa de esfregar dois calhaus para fazer o jantar (normalmente, baratas fritas) tem menos tempo para dedicar ao estudo da História do que um académico que disponha de um aparelho a que os antigos chamavam fogão. Segundo certos relatos, uma frase popular no século XXI dizia: "A História repete-se." Essa ideia parecia ignorar outra, porventura mais importante: "A Pré-História repete-se também." Foi o que aconteceu após a devastação provocada pela III Guerra. Sobre esse conflito global sabemos apenas que foi provocado por testes nucleares levados a cabo por Kim Jong-un, o ditador de um país chamado Coreia do Norte. Ao que se imagina, o principal problema de Kim Jong-un era o facto de a cara de Kim Jong-un ser extremamente parecida com o rabo de Kim Jong-un. Supõe-se que tenha sido essa circunstância a precipitar os trágicos acontecimentos de 2017, e que motivaram a inclusão, na Nova Constituição Mundial, do artigo 23º, que diz: "Nenhum indivíduo cuja cara pareça um rabo poderá alguma vez candidatar-se a cargos públicos" regra que deve, aliás, ser lida em articulação com o artigo 22º, que prevê a mesma inibição para candidatos com bigodinhos ridículos e/ou caras cor-de-laranja.

De acordo com jornais da época, descobertos no ano passado cem metros abaixo do solo numa casa situada numa localidade portuguesa chamada Marmeleira, a Coreia do Norte era um país subdesenvolvido que, ao contrário dos demais, não era visível do espaço, à noite, dada a escassa iluminação. O conflito iniciado por Kim Jong-un produziu, desse ponto de vista, uma uniformização bastante democrática, uma vez que, agora, nenhum país do mundo é visível do espaço, à noite. Com algum esforço, a humanidade consegue compreender as razões que levaram aos dois primeiros conflitos mundiais. Mas continua a não entender totalmente as intenções de Kim Jong-un nas vésperas do terceiro conflito global e, sobretudo, os motivos que o levaram a fazer eclodir uma inoportuna guerra mundial mesmo antes de o Benfica conseguir o Penta."



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

domingo, setembro 10, 2017

Almeida, o bruxo de serviço

Puxa uma cadeira e senta-se uma pessoa à mesa de um café onde já estão sentadas outras quatro ou cinco individualidades. O tom da conversa é desmesuradamente exaltado sendo o assunto ou política internacional ou futebol ou jardinagem ou desemprego de longa duração. Na realidade, tanto faz. Qualquer que seja o tema em apreço é a exaltação geral que se sobrepõe. Já jantada, sentadinha à mesa do café diz finalmente essa pessoa o que lhe vai na alma sobre isto ou sobre aquilo e caem-lhe em cima os demais comparsas em desacordo numa chinfrineira sem medida. São quatro ou cinco contra um. A conversa prossegue, dá à volta à mesa e todos exprimem com alarido opiniões incrivelmente iguais sobre tudo até chegar outra vez a vez do último a chegar que, constrangido pela desproporção em vigor, lá dá ao seu parecer sobre os tópicos em discussão. Logo lhe voltam a cair em cima os outros clientes numa tal gritaria que até parece coisa de gente doida. Uns impedem-no de falar batendo com as mãos no tampo da mesa, outros espumam-se e reviram os olhos e outros desatam a debitar recordações sobre as visitas que faziam à madrinha na Páscoa no tempo em que as madrinhas lhes davam saquinhos com amêndoas e já era um pau. O empregado de mesa não só não mexe uma palha para por cobro aos desacatos como ainda vai servindo doses reforçadas de cafeína porque o patrão lhe disse que estava ali para vender bicas e não para vender chá de tília que dá sono segundo a tradição popular. Um cidadão comum colocado perante uma situação destas, impossibilitado pela grossa maioria de exprimir as suas mais banais opiniões à mesa do café só tem duas opções: ou se levanta e vai para casa tranquilamente deixando os demais a falar sozinhos ou, se for dado a ímpetos socialmente condenáveis, levanta-se e, antes de voltar para casa, vira a mesa do café provocando estardalhaço e uma quantidade de louça partida. Ou não é assim? Toda esta historieta para sugerir que talvez esteja na altura de o departamento de comunicação do Benfica repensar seriamente os termos e os objectivos da participação – ou da não-participação – dos seus esforçados e minoritários comunicadores nas charlas televisivas que, na verdade, só existem maioritariamente à pala do mesmo Benfica.

O que Sporting e Benfica ontem sofreram para vencer o Feirense e o Portimonense deitou um bocadinho por terra a teoria de Manuel Machado e de todos os que, como ele, entendem que a diferença de orçamentos entre as equipas da Liga é determinante e incontornável. Ontem o Sporting só contornou o Feirense no oitavo minuto do tempo extra e o Benfica para vencer os algarvios passou pela vergonha de ter de agradecer ao vídeo-árbitro a anulação – certíssima – do segundo golo de Fabrício e pela vergonha de sofrer as passas do Algarve quando jogava em superioridade numérica contra um recém-promovido. Se foi questão de bruxos, os bruxos estiveram em grande. Os bruxos e André Almeida.



Fonte : Leonor Pinhão @ record




sábado, setembro 09, 2017

Dá-lhes, batanete, dá-lhes!

No remanso do lar, confortavelmente sentado no sofá sem deixar cair aquele sorriso de uma aprovação que vem do fundo da alma, com que orgulho deve o presidente da Liga ter assistido na noite de terça-feira à prova oral do presidente do Sporting, o seu colega de estudos. Ambos terão frequentado o mesmo estabelecimento do ensino superior e, por isso mesmo, ambos são doutores e camaradas de armas na linha da frente da luta pelo progresso. E não se trata de um progresso qualquer. Trata-se de fazer avançar para patamares invejáveis em toda a Europa civilizada a maravilhosa indústria do futebol nacional.

- Que talento! – disse o presidente da Liga, falando com os seus botões, quando viu o presidente do Sporting embrenhar-se na imitação do filho de um presidente de um clube com quem teve um desaguisado recentemente. 
– Dá-lhes, batanete! – clamavam, entretanto, pelos cafés dos subúrbios os apoiantes do presidente do Sporting definitivamente conquistados pelo momento único a que acabavam de assistir.
- Impecável! – murmurou embevecido o presidente da Liga quando viu o presidente do Sporting puxar dramaticamente da Constituição da República para fazer valer a sua liberdade de expressão e ignorar os castigos absurdos que um qualquer órgão disciplinar lhe impôs por dá cá aquela palha.

O presidente do Sporting reservou para si o estúdio da Sporting TV na já histórica noite de terça-feira passada porque terá sentido uma urgência em explicar à minoria ínfima de sócios que não o veneram as verdadeiras razões pelas quais dois ‘capitães’ do clube ficaram tão amarfanhados no fecho deste mercado. O caso de Adrien que vai estar sem jogar até ao Ano Novo e o caso de William que vai estar sem jogar até que Jorge Jesus, o psicólogo anunciado, o consiga recuperar para a vida ativa poderiam estar a provocar algumas ondas de incompreensão – mínimas, esclareça-se… - entre os sportinguistas menos dados a deliciar-se com estas práticas de gestão. E como nesta luta não está sozinho, visto que escolheu o presidente do Porto para companheiro de estrada, não espantará que este também tenha assistido à emissão televisiva por uma questão de delicadeza. 
- Ao pé disto aquela cena do major em roupão à porta de casa passou a ser um dos momentos mais chiques do futebol português! – terá proclamado o pensativo presidente do Porto, quando viu o presidente do Sporting a representar para a câmara o expelir do fumo pelo nariz e pela boca. 
Ai o progresso! O progresso que os confunde.

Outras Histórias
O fim da Aliança Luso-Britânica
Falta a chancela do Porto Canal aos emails do West Ham   
Os jornais noticiaram a decisão do West Ham no sentido de processar o dirigente ‘tuga’ que chamou "dildo brothers" aos responsáveis do clube inglês. Por ignorância, puritanismo ou alto sentido de Estado, a tradução para língua portuguesa da expressão em causa foi, de um modo geral, sonegada aos leitores nacionais deixando perplexos os que não dominam estas áreas de conhecimento linguístico e vocabular. Mas processado porquê? – ter-se-á interrogado muito boa gente antes de correr ao Google para solucionar o bicudo caso. Entretanto, sem menor pinta de fleuma, os britânicos, de tão ofendidos que ficaram, desataram a mandar para a Sky Sports – uma minúscula estação de televisão inglesa que funciona numa loja de sapateiro num bairro pobre de Londres – uns ‘supostos’, "alegados", "forjados" e "mal amanhados" emails. Coitado do West Ham! Coitada da Sky Sports! Mal sabem eles que para os seus ridículos emails serem levados a sério falta- -lhes a chancela do Porto Canal.



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha 

sexta-feira, setembro 08, 2017

Se governar; não beba

Quando soube que o Texas ia ser acometido por um furação destruidor, Donald Trump procedeu como qualquer grande líder: foi imediatamente escrever no Twitter. A mensagem dizia: “Chuvadas HISTÓRICAS em Houston e por todo o Texas. Cheias sem precedentes e vem aí mais chuva. O espírito do povo é incrível. Obrigado!” Três coisas saltam à vista: 
1. Trump é um daqueles PATUSCOS que escrevem ALGUMAS palavras em MAIÚSCULAS no meio DO texto; 
2. Trump tem dificuldades com o conceito de tom; 
3. Trump agradece, como se fosse um favor pessoal, que o povo do Texas esteja a tentar salvar-se como pode. Gostaria de analisar todos estes pontos detalhadamente.

Quanto ao primeiro, deve registar-se que se trata de mais uma falha de carácter de Donald Trump, a juntar às já conhecidas – e não é das menores. Ao longo do tempo, os membros do Partido Republicano foram abandonando Trump por vagas: uns abandonaram-no mal ele abriu a boca; outros deram o benefício da dúvida até saírem umas gravações sobre o tratamento que ele dava às mulheres; outros esperaram um pouco mas não aguentaram mais quando ele disse que havia gente mesmo impecável na manifestação nazi. Agora que se SABE que ele faz ESTA brincadeira PARVA e extremamente IRRITANTE com as palavras, não se imagina quem possa continuar ao lado de um homem destes.

A propósito do segundo ponto, é interessante notar que o tweet parece ter sido concebido por aqueles maduros que vão contemplar vagalhões para o pontão quando há tempestade. Mais do que preocupação, Trump parece exprimir profunda admiração pelo fenómeno natural. São chuvas históricas – e não vão ficar por aqui. É um fenómeno sem precedentes e temos a sorte de estar cá para o contemplar. Realmente, a natureza tem coisas giras.

O terceiro ponto indica que o presidente dos Estados Unidos da América é aquilo que se costuma designar por “buéda fixe”. Obrigadão, malta. Força aí. Tenho visto pessoal a nadar com muito estilo, nesse dilúvio. Está a dar gosto ver. Continuem. Aquele abraço. Cumps.
Apesar de interessante, a mensagem de Trump não me deixa esquecer a ausência de um tipo especial de apreciador de furacões: aqueles fanáticos religiosos que costumam fazer uma interpretação moral dos fenómenos da natureza. Quando o Katrina destruiu Nova Orleães, disseram que se tratava de um castigo divino aos homossexuais daquele Estado. Ora, desta vez, Deus atacou no Texas, povoado sobretudo por caubóis, que não são cá dados a mariquices – apesar do que sugere o filme O Segredo de Brokeback Mountain, que é eminentemente uma obra de ficção científica. Além disso, Trump acabou de aprovar a proibição da entrada de transsexuais na tropa. Talvez Deus não receba o Diário da República.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

segunda-feira, setembro 04, 2017

É apenas questão de pobreza

E lá seguiu para Marselha o extraordinário Mitroglou a quem os benfiquistas ficam a dever uma impressionante quantidade de momentos sublimes em apenas dois anos de permanência na Luz. O grego que não sabe sorrir e que tanto nos fez sorrir já não mora cá. O seu contributo foi mais do que inestimável para o título de 2015/2016 – foi ele o autor do golo solitário em Alvalade que permitiu ao Benfica ascender à liderança que não mais abandonaria – e, como se não bastasse, foi também ele o autor inspiradíssimo do golo solitário com que o Benfica venceu em Braga ao cair do pano não permitindo ao FC Porto ascender à liderança quando o campeonato de 2016/2017 se aproximava da decisão. A estes dois golos memoráveis somem-se mais 50 tentos assinados pelo grego em 88 jogos e some-se ainda aquele gesto tão seu de cumprimentar os adeptos com um sereníssimo agitar de mão à maneira da rainha de Inglaterra. Ou de outra rainha qualquer. Que rei.

O melhor jogador da última Liga viu-se afastado dos trabalhos da Selecção Nacional porque se terá lesionado no decorrer do jogo do Benfica em Vila do Conde. Vai continuar, assim, o Pizzi sem ver nenhum cartão amarelo durante mais uma semana. Uma coisa destas merece, no mínimo, três assanhadas dúzias de debates televisivos em prol da verdade desportiva convocando-se, para o efeito, todas as forças intelectuais da desgraçada coligação em vigor.

Na noite da passada terça-feira, enquanto o mundo civilizado se angustiava com o lançamento de um míssil norte-coreano que sobrevoou o território do Japão (merecendo este episódio bélico grande destaque nos serviços noticiosos estrangeiros) entretinham-se por cá todas as nossas estações de televisão servindo ao estimado público português altíssimas chinfrineiras sobre a tormentosa questão do vídeo-árbitro que, como é do conhecimento público, se trata de uma acção experimental superiormente autorizada pela UEFA em uns poucos – pouquíssimos – campeonatos da segunda linha europeia. Que a imprensa em Portugal vive uma crise danada é um dado adquirido e, assim sendo, ninguém com o mínimo de bom senso se atreve a sugerir que sairia mais em conta ao patronato manter correspondentes internacionais constantemente a debitar informação em directo do Congresso em Washington ou em directo da mais alta torre de Tóquio ou em directo de qualquer outro lugar exótico do planeta do que enfiar durante três ou quatro horas três ou quatro indivíduos de singela extracção nacional num estúdio de televisão à mão de semear e, sob a orientação profissional de um moderador da casa, pô-los sem moderação aos gritos sobre, repita-se, a tormentosa questão do vídeo-árbitro ou outra qualquer do mesmo género. E desta maneira se vão preenchendo diariamente emissões atrás de emissões a preços mais do que acessíveis. E quem quiser saber o que se passa neste mundo pois que sintonize a CNN. No fundo, a questão por cá é só uma e é triste: pobreza.



Fonte: Leonor Pinhão @ Record