sábado, agosto 19, 2017

Centro de treino do vídeo-árbitro

Realizou-se a 1ª jornada do campeonato de 2017/2018. Começou, assim, a era moderna do futebol português com a introdução de tecnologia no intuito, louvável, de reduzir ao mínimo os erros de avaliação dos juízes de campo. O vídeo-árbitro será a solução para o futuro mas, face aos eventos registados na primeira jornada da nossa Liga, pode considerar-se, com muita pena, que o vídeo-árbitro não é de todo a solução para o presente da indústria. 

Apesar de haver "vídeo", uma maquinaria impessoal que debita imagens reais, continua a haver "árbitro" e esse fator humano – demasiadamente humano – parece que só lá está para atrapalhar. Sucedem-se, por exemplo, situações, inauditas, em que os jogadores têm de esperar até poderem festejar os golos que apontaram depois do visionamento e revisionamento do lance e da concomitante aprovação das autoridades sentadas. 

Casos destes são péssimos para o natural fluir do espetáculo e só são ótimos para os espectadores e para os adeptos quando se dá o caso de a decisão final ser do seu agrado. E como o agrado de uns é o desagrado de outros, prevê-se igual número de dissabores da multidão entre esperas pouco naturais em função do historial do jogo. 

O cidadão comum, que acha perfeitamente natural esperar dois ou três minutos pela chegada do metropolitano, já não achará aceitável esperar essa eternidade para poder festejar um golo dos seus ou para lançar as mãos à cabeça perante o desespero de um golo que teve de ser sancionado com "delay" pela equipa de vídeo-árbitros. 

No entanto, mesmo com estes soluços práticos dos primeiros tempos, a chegada do vídeo-árbitro ao campeonato português encerra grandes, enormes vantagens para uns quantos agentes da indústria. Os primeiros beneficiados são os árbitros de campo propriamente ditos. 

Se o vídeo-árbitro não é ainda a melhor coisa que aconteceu ao futebol, já é, certamente, a melhor coisa que aconteceu aos árbitros, que, de apito na boca, dirigem jogos na vida real. Pelos montantes de ódio que recaíram sobre os vídeo-árbitros na sequência de decisões tomadas nos jogos FC Porto-Estoril e Benfica-Sp. Braga não é difícil concluir que a tarefa e a vida dos árbitros-a-sério fica bem mais facilitada com a introdução desta era de modernidade. 

Que ninguém se admire se lá mais para o Natal, quando a tabela ferver, uma qualquer claque – legalizada, obviamente – invadir furiosamente o centro de treinos dos vídeo-árbitros pedindo satisfações aos árbitros-sentados e deixando em paz o centro de treinos dos árbitros-em-pé. Mas que futuro extraordinário se adivinha para os nossos futebóis. 



A receita: custo zero + custo zero + 22 milhões de euros 
Faz hoje uma semana que o Benfica arrecadou o primeiro título oficial da temporada vencendo o Vitória de Guimarães por 3-1 na discussão da Supertaça com golos de Jonas, Seferovic e Jiménez. 

A única novidade deste episódio, por comparação com os protagonistas dos êxitos nas últimas épocas, é o tal tento de Seferovic, um suíço recém-chegado a "custo zero" depois de esgotado o contrato que o prendia ao Eintracht de Frankfurt. Também Jonas chegou ao Benfica a "custo zero" em 2014 com amplos proveitos para todas as partes. 

Com Seferovic à disposição parece ter-se reduzido o campo de Mitroglou, que, nas artes de se chegar às balizas, é dono de um reportório mais curto do que o do suíço. São estas as primeiras impressões deixadas em campo por Seferovic, que voltou a marcar ao Braga. 

Mas quem resolveu mesmo a questão da Supertaça foi o mexicano Jiménez, o tradicional solucionador, que custou 22 milhões de euros e que, normalmente, se senta no banco. E qual é o problema?



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

domingo, agosto 13, 2017

É tudo uma questão de tamanho

"Três metros! Medem tudo os fautores da inovação. Vão acabar a medir ecrãs de televisão de régua em punho porque o golpe de vista já não chega. Nesta senda, "O Jogo" chamou para título de uma sua recente edição on-line o caso do "tamanho das bandeiras do Benfica" nos estádios de futebol. Depreende-se, pela melancolia da reportagem, que têm tamanho a mais. No entanto, maior força moralizadora teria esta luta se o alerta bandeiral do diário portuense apresentasse as medidas concretas dos panos. Até porque naquele célebre rendez-vous elegante no Hotel Altis entre os chefes-comunicadores do FC Porto e do Sporting ficou logo assente que, no que a bandeiras do Benfica dissesse respeito, pertencia ao pessoal do Porto medir os estandartes propriamente ditos enquanto ao pessoal de Alvalade caberia medir os respectivos paus.
Saúde-se, assim, quem leva a peito as incumbências. Neste caso preciso, saúde-se o diligente Saraiva que, ao contrário dos amigos negligentes que medem tamanhos a olho nu, deu-se ao trabalho – e, aliás, viu-se bem atrapalhado… – de desenrolar 300 centímetros de fita métrica até se poder apresentar em público denunciando a verdade sobre o tamanho dos paus das bandeiras do Benfica. Têm "hastes de três metros" disse conscientemente porque as mediu e, também, elegantemente porque as hastes sempre lhe soam melhor do que os paus como, aliás, soam melhor a toda a gente de bom senso.
Os dois primeiros jogos oficiais confirmaram as suspeitas: para Seferovic não há ângulos difíceis. Todos os ângulos são bons para o suíço atirar à baliza. Eis um facto que não se enquadra em nenhum ilícito penal.
Já para Ricardo Espírito Santo, o realizador da transmissão televisiva do jogo da Supertaça, houve um ângulo difícil. O Ricardo, o extraordinário profissional, o cavalheiro que docemente nos poupou ao abuso necrófilo na hora da morte de Féher, viu-se em fogueiras porque, inadvertidamente, deixou ir para o ar 3 segundos mais cedo do que estava previsto o plano de uma rapariga extraordinariamente bem equipada. E o que estaria destinado a ser o milionésimo plano geral de uma adepta vistosa num estádio de futebol apareceu em casa de toda a gente como um zoom ao peito da rapariga. Pediu desculpa o Ricardo, claro. Mas não chegou para pôr cobro à indignação, o que é de estranhar porque, por exemplo, os três jornais desportivos nacionais, que tanto se orgulham de ter mulheres nos seus quadros como prova absoluta da "igualdade" entre sexos, publicam a toda a hora nas suas edições on-line fotografias de raparigas quase 100% desequipadas e a que correspondem legendas como "É de ver e de chorar por mais" ou "Chame-lhe o que quiser mas depois não se queixe" ou "Esta tailandesa leva qualquer um para a cadeia". E, segundo parece, ninguém se ofende apesar de já estarmos na 2.ª década do século XXI.
Têm "hastes de três metros" disse conscientemente porque as mediu."

Fonte: Leonor Pinhão @ record

segunda-feira, agosto 07, 2017

Rui Vitória e a difícil arte de substituir insubstituíveis

O Benfica sofreu 14 golos em 6 jogos na pré-temporada, o que é um exagero para uma equipa que se habituou e que habituou os seus adeptos a uma solidez defensiva só ao alcance de campeões. O problema, bastante visível, não encerra nada de sobrenatural. 

O bruxo é, presume-se, o mesmo mas o Benfica viu sair de uma assentada o guarda-redes Ederson, o defesa-lateral Nélson Semedo e o defesa-central Lindelof e os destinos que tomaram estes jogadores dizem tudo sobre a sua incomparável valia. E, assim sendo, comparar o atual grupo defensivo do Benfica ao "ensemble" que brilhou em 2016/2017 será sempre um exercício confrangedor. 

Só por milagre conseguirá o Benfica reconstruir um setor recuado que se aproxime da qualidade exposta por aquele trio de ouro e este "drama" vai marcar, inelutavelmente, a temporada de 2017/2018 na Luz. 

Do meio-campo para a frente continua o Benfica aparentemente bem servido e três dos chamados "reforços" apresentaram credenciais nestes 6 jogos de preparação antes de a coisa ser a sério. O suíço Seferovic, o inglês Willock e o eslovaco Chrien, sem deslumbrar, mostraram habilidades em número suficiente para aprovação nestes exames de verão. 

Pena que nenhum deles seja um médio-defensivo porque o Benfica, até ver, continua dependente de Fejsa – e só de Fejsa – nessa zona charneira de tudo o que de bom e de mau pode acontecer a uma equipa num jogo de futebol. Boa sorte e toda a saúde do Mundo para Jonas, Pizzi e Luisão – os 3 essenciais – e quem sabe se o tal ‘penta’ não acabará mesmo por acontecer? 



O preço dos golos, Jiménez e os outros  
Se a História se repetir e o Benfica chegar às derradeiras jornadas da próxima Liga apertado na classificação por um dos seus rivais (ou pelos dois ou até por três, dando-se o caso de aparecer um intruso na luta pelo título) e se vir na obrigação de conquistar os 3 pontos na sempre difícil deslocação a Vila do Conde, quem é que vai marcar desta vez o golo salvador se Raúl Jiménez for vendido até ao fim deste mês de agosto? Seferovic, pois claro, dirão os adeptos mais otimistas ainda encantados com os golos suíços na pré-temporada. 

Mitroglou, pois claro, dirão os mais tradicionalistas que não esquecem o golo grego que valeu os 3 pontos em Braga na época passada. No entanto, dificilmente conseguirá o Benfica manter o mexicano, o suíço e o grego nos quadros. Raúl Jiménez é o mais completo dos três e é o que detém um reportório mais amplo. Por isso mesmo é o que tem maior valor de mercado e o que fará mais falta. 


Rafa 
Ou sim ou sopas 
Não foi barato o preço que o Benfica pagou ao Sp. Braga por Rafa e eram bem altas as expectativas criadas em torno do jogador. Em 2016/17, o ano de estreia na Luz, Rafa não passou do assim-assim. Em 2017/2018, passará? 



Cervi  
Em todo o campo 
O argentino foi figura importante na conquista do ‘tetra’ acrescentando aos seus dotes ofensivos uma surpreendente capacidade de luta e de sacrifício. E foi assim que conquistou o treinador e os adeptos. 



Grimaldo  
Questão lateral 
Vender Grimaldo é uma possibilidade para o Benfica, o indisputado rei dos encaixes chorudos. A questão é que com Grimaldo o Benfica fica mais forte e sem Grimaldo nem de perto nem de longe se lhe vê sucessor no horizonte. Haverá sempre Eliseu?



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

sábado, julho 29, 2017

Com três centrais, não!

Falta uma semana para tudo voltar a ser a sério. Já não era sem tempo. O defeso passou-se como se passam todos os defesos. Entre a monotonia e a saudade das emoções, e mais uns quantos sentimentos mornos salpicados de promessas bélicas a anunciar o que está para vir de agosto até maio de 2018. Jogadores e treinadores estiveram de férias mas os departamentos de comunicação dos três candidatos ao título não pararam nem para dar um mergulho rápido na água do mar que tudo refresca, até as ideias. Prosseguiu, assim, em tons ameaçadores, o diálogo institucional entre os grandes de Portugal. Estas chinfrineiras pagam-se lamentavelmente. 

O diretor de comunicação do FC Porto, por exemplo, anunciou na semana passada que "o melhor está para vir" e logo no dia seguinte o presidente do clube sofreu uma queda aparatosa que o remeteu para o leito de um hospital. O presidente do Sporting também foi notícia porque se casou, o que, convenhamos, não tem nada de francamente especial, e o presidente do Benfica só conseguiu ser notícia porque entrou em campo à frente da equipa no primeiro dia do estágio em Inglaterra, um acontecimento menor que lhe outorga o título do menos mediático dos três sensacionais presidentes em concurso. 

A época oficial de 2017/18 arranca no próximo fim de semana com a discussão da Supertaça, que opõe o campeão nacional ao finalista vencido da Taça de Portugal. Terá, portanto, o Benfica de vencer o V. Guimarães se quiser continuar a sua impressionante soma de títulos e se pretender continuar a ser veementemente acusado de domínio hegemónico em Portugal. É com isso que os benfiquistas contam e é contra isso que a equipa de Pedro Martins se vai debater de hoje a uma semana em Aveiro. 

Para preparar o confronto com os campeões de Portugal escolheu o V.Guimarães ter neste defeso por adversários o FC Porto e o Sporting, duas equipas do top interno, tendo-se saído mal no jogo com os primeiros e muitíssimo bem no jogo com os segundos. A equipa técnica do Benfica observou, certamente, com muita atenção o evoluir da formação vitoriana – sempre um rival que mete respeito – desde o primeiro dia da chamada pré-época e terá chegado, pelo menos, a uma conclusão pertinente: é de todo desaconselhável jogar contra o V.Guimarães com uma linha de 5 defesas contando com 3 centrais. Foi o que fez o Sporting e viu-se o que aconteceu. 

Se não fosse o árbitro ter mostrado um cartão vermelho a Coates impondo com bom senso, mas à força, o regresso a uma linha defensiva mais clássica, ninguém sabe a que volume teria chegado o ‘score’ final. Foi este o fulminante recado deixado a Rui Vitória depois de Rio Maior: com 3 centrais, não! 



Geraldes e o problema de ler em pleno horário de trabalho    
O gosto pela leitura é uma bênção e ninguém considerará que a profissão de futebolista é incompatível com o prazer dos livros. Bem esteve o marketing do Rio Ave ao anunciar Francisco Geraldes como um dos seus para 2017/2018 através da imagem de um exemplar de ‘Ensaio Sobre a Cegueira’ de Saramago semi-envolvido numa camisola vila-condense. Foi este o livro que Geraldes lia no banco do Sporting enquanto não começava um desses joguinhos da pré-temporada. 

O caso deu algum brado e fica a dúvida se o jogador terá sido emprestado pelo Sporting ao Rio Ave por não ter qualidade suficiente ou por estar a ler de chuteiras calçadas, ou por o título da obra ter sido entendido como provocatório. Ler é uma vantagem (e sempre será) mas a abstração que a leitura provoca não pode ser consentida a nenhum profissional de nenhuma profissão no momento em que as suas funções lhe exigem a maior concentração operacional. 

Ainda assim, como não simpatizar com o Xico Geraldes e com o Rio Ave?




Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

domingo, julho 23, 2017

Octávio e os passarinhos

Nestas conversas do futebol, fala-se muito de "credibilidade" como a qualidade sem a qual ninguém pode ser levado a sério.
Até nas esferas mais altas da nossa Justiça desportiva é essencial essa qualidade de se poder ser levado a sério de modo a não ferir decisões importantes para a moral pública.
Veja-se este caso recente da decisão de um órgão disciplinar da FPF sobre o processo do Apito Dourado em que foi liminarmente desprezada a contribuição de uma testemunha por não lhe ser reconhecida credibilidade.
É um facto que vivemos numa sociedade altamente civilizada onde, por exemplo, quem trabalha ou trabalhou numa casa noctívaga não tem credibilidade, enquanto aos clientes da mesma casa noctívaga é reconhecida toda a credibilidade desde que por lá paguem as contas e exijam os seus números de identificação fiscal nas facturas. É assim que o país progride.
Todo este relambório vem a propósito de Octávio Machado, o ex-director do futebol do Sporting, e da entrevista que concedeu à CMTV tendo como tema central a sua saída voluntária da estrutura do clube de Alvalade que, agora sem ele e segundo as suas próprias palavras, está repleta de "passarinhos", que é a mesma coisa do que dizer que a incompetência campeia.
A mudança de campo de Octávio provocou, naturalmente, acesas discussões entre a opinião pública dividida no que respeita à credibilidade a emprestar ao funcionário diligente e leal à presidência que passou, com a mesma verve de sempre, a dissidente leal à dissidência.
Feridos pela doença intratável de clubismo, milhares de fazedores de opinião – os profissionais dos estúdios de TV e das redes sociais e os amadores que pululam em todos os cafés e cervejarias do país – fizeram passar as declarações contundentes de Octávio Machado pelo crivo da querida credibilidade e chegaram a dois tipos de conclusão: a primeira, aos olhos dos sportinguistas afectos ao regime, é que o ex-dirigente em causa não tem credibilidade nenhuma, e a segunda, aos olhos da oposição interna e dos rivais externos é que o mesmo ex-dirigente tem toda a credibilidade do mundo.
Curiosamente, antes da demissão de Octávio ser uma hipótese a considerar nos terreiros, as opiniões destes grupos em confronto eram em tudo contrárias.
E os que acreditavam no "palmelão" que reunia em si o suprassumo das qualidades de que um homem necessita para ser levado a sério são agora os que menosprezam e fazem por ignorar olimpicamente as opiniões do "palmelinho" a quem acusam do ressabiamento dos não-credíveis. E vice-versa. "Olhó passarinho!", gritavam os antigos fotógrafos de feira.
"Olhó passarinho!", diz agora o novo Octávio que, em boa verdade, é o mesmo Octávio de sempre."


Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manhã 

sexta-feira, julho 21, 2017

A liberdade de inexpressão

O nosso futebol conta com a desajuda de uma regulamentação disciplinar frequentemente idiota que, na sua essência, afronta a própria Constituição. 

O futebol julga-se um Estado dentro do Estado com os seus tribunais próprios e não deixa de ser verdade que ao longo de décadas, de regimes e de modas, tem-se imposto imperialmente num patamar de exceções que ninguém se atreve a colocar em causa. Até um dia… 

Tomemos os casos das "suspensões" do presidente e do diretor de comunicação do Sporting e do diretor de comunicação do FC Porto por força de um uso torrencial de palavreado considerado difamatório para uns quantos "agentes" da indústria. 

Um qualquer dos muitos órgãos disciplinares da Liga ou da FPF entendeu suspender os referidos palestrantes das suas funções considerando, abusivamente, que a função de falar em público ou para o público se encontra abrangida pela penalização. 

Ora não foi para isto que se fez o 25 de Abril. Os órgãos disciplinares do futebol português têm o dever de salvaguardar o bom-nome da sua tropa mas não podem, em caso algum, mandar calar as vozes e as nozes que, mesmo passando das marcas, se atrevem a atirar para o lamaçal os costumes diários das suas gentes. 

O que significa, em termos práticos, a "suspensão" de um dirigente ou de um funcionário de um clube? Basicamente, é ficar calado por lei tal como nos tempos do Estado Novo se silenciavam as vozes discordantes. Nada disto faz sentido no século XXI. 

Se há matéria impura nas alocuções dos homens do futebol existem os tribunais civis para se resolverem essas questões. Já terão dado conta, certamente, que a partir do momento em que Bruno de Carvalho e Nuno Saraiva foram "suspensos" e mandados calar todas as notícias nos três jornais desportivos sobre a vida política e desportiva do Sporting se iniciam com uma frase-truque – "segundo fonte oficial de Alvalade…" – e que é também um insulto à liberdade de expressão em geral, à ética profissional dos jornalistas e à inteligência dos seus leitores. 

O diretor-suspenso de comunicação do FC Porto lamentou há dias no Twitter este estado das coisas citando a Constituição no que diz respeito à expressão livre do pensamento consagrada na lei. Tem razão Francisco J. Marques. À Constituição não escapa nada e ainda bem. 

Até dispõe de um artigo dedicado à "violação de correspondência ou de telecomunicações" em que aponta uma "pena até um ano de prisão" para "quem, sem consentimento, divulgar o conteúdo de cartas, encomendas, escritos fechados ou telecomunicações". À bola o que é da bola, à justiça o que é da justiça. 



OUTRAS HISTÓRIAS 
Investida castelhana por mar  
Resta agora a Ronaldo contratar a padeira de Aljubarrota  
As autoridades fiscais espanholas avançaram até ao iate onde Cristiano Ronaldo passa férias com a corte que sempre o acompanha nestas ocasiões estivais e procederam a "buscas" na embarcação. 

O jogador e "capitão" do Real Madrid tem vindo a ser acusado de beneficiar de um ardiloso esquema de fuga ao fisco e está sob a mira de uma investigação judicial. 

No mesmo dia em que viu a polícia entrar-lhe pelo barquinho, Cristiano Ronaldo publicou uma fotografia dele próprio com toda a sua alegre trupe escalonados numa piscina suficientemente grande para caberem todos. Não se sabe o que o fisco espanhol encontrou no iate. 

Sabe-se apenas que as relações diplomáticas entre os dois países peninsulares podem vir a ser abaladas por este incidente que põe em causa uma paz de séculos. 

Resta a Cristiano Ronaldo continuar a marcar golos e contratar a padeira de Aljubarrota para que, de pá na mão, impeça a progressão castelhana como o fez há 7 séculos em Aljubarrota. Invejosos.



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

Aproveito para me demitir também

A grande semelhança entre o Ministério Público e o chinelo da minha avó – satisfaço finalmente a curiosidade de quem sempre quis saber – é a seguinte: ambos se dedicam a punir quem vai ilicitamente ao futebol. Poucas pessoas estarão mais habilitadas para escrever sobre os três secretários de Estado que se demitiram por terem ido ver jogos da selecção a França, a expensas da Galp. Já estive em situações parecidas. No meu caso, havia infracções de três tipos: ou eu estava no futebol quando já devia estar em casa; ou estava no futebol quando devia estar a cumprir outro tipo de obrigações; ou estava no futebol quando devia estar no futebol, mas rompia botas ortopédicas que tinham sido adquiridas na véspera. É certo que nunca estive no futebol a convite de empresas que tinham um contencioso fiscal com o Estado e sobre as quais eu me encontrava em posição de tomar decisões, mas creio que, se isso tivesse acontecido, o chinelo da minha avó me teria punido na mesma. O essencial é: eu sei o que é ser castigado por estar ilicitamente no futebol. Mais: comparado com os castigos que suportei, os que foram impostos aos secretários de Estado são para meninos. Nem se pode dizer, aliás, que os castigos foram impostos. Foram eles que se demitiram. Quando souberam que o Ministério Público ia constituí-los arguidos, resolveram antecipar-se e constituir-se arguidos primeiro – porque, provavelmente, ao longo do último ano aprenderam que não devem aceitar nada de ninguém. Já no meu caso, o castigo da ilicitude futebolística consubstanciava-se no impacto da dura sola nas minhas tenras nádegas. Não havia maneira de eu me antecipar e punir as minhas nádegas por minha própria iniciativa. Até porque, se o fizesse, acabaria por ser punido por dois motivos: ilicitude futebolística e uso indevido e não autorizado do chinelo. Imagino que sair do governo custe, mas desafio estes secretários de Estado a experimentarem o chinelo da minha avó. Isso sim, é uma punição moralizadora da vida política e da sociedade em geral. O Ministério Público que me desculpe, mas não moraliza nada enquanto não obtiver um chinelo credível e com sentido de Estado.


Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

sábado, julho 15, 2017

O homem das casernas

Julgo não estar longe da verdade se disser que o adjectivo “fandanga” é usado exclusivamente para qualificar determinada tropa. Nunca, ao longo de toda a minha vida de falante de português, registei outra utilização do termo. Parece-me improvável que não haja, neste vasto mundo, mais coisas fandangas, mas o certo é que o povo não as designa com esse apodo. Talvez suceda que, quando os fandangos decorrem na tropa, se evidenciem mais. Que haja situações fandangas civis não sobressalta tanto como a existência de fandangos na tropa, como é óbvio. Considerando o rigor e a exigência militares, as ocorrências fandangas castrenses acabam por sobressair. Todos conhecemos o esmero e a firmeza com que um militar é obrigado a desmontar a arma, limpar a arma, apresentar a arma, cruzar a arma, descansar a arma. Seria de esperar que mantivesse o mesmo zelo a guardar a arma. Uma vez que contamos com a tropa para nos defender, o assalto ao paiol de Tancos parece indicar a necessidade de uma tropa que defenda a tropa. E, talvez, de uma tropa que defenda a tropa que defenda a tropa.

Eu fui, aliás com justiça, dado como inapto para o serviço militar. O ministro da Defesa, infelizmente, não parece muito mais apto – e no entanto pode comandar as forças armadas. O desleixo na protecção do paiol sugere que as forças armadas estavam, na verdade, armadas em boas. E o roubo repercute-se na própria designação: “forças armadas” talvez seja, neste momento, ao menos até certo ponto, um exagero, na medida em que as forças acabam de ser desarmadas. É possível que o chefe supremo das forças armadas, o Presidente da República, tenha amolecido a tropa com a estratégia do afecto. Os militares vêem gatunos a encher um camião de munições e optam pela via do diálogo e da compreensão. Nada contra o afecto, mas de vez em quando deve ser temperado com uma ou outra manifestação de bruteza.

Neste momento, creio que só Pedro Passos Coelho pode salvar o governo. O país precisa que o líder da oposição dê uma demonstração de patriotismo que faça jus ao brioso pin que ostenta na lapela e afirme, perante os microfones, que, de acordo com o que ouviu dizer a uma pessoa de família, o material de guerra roubado já foi usado para cometer um suicídio. O ministro Azeredo Lopes está à espera, ansioso.



Fonte: Ricardo Araujo Pereira @ Visão