domingo, julho 23, 2017

Octávio e os passarinhos

Nestas conversas do futebol, fala-se muito de "credibilidade" como a qualidade sem a qual ninguém pode ser levado a sério.
Até nas esferas mais altas da nossa Justiça desportiva é essencial essa qualidade de se poder ser levado a sério de modo a não ferir decisões importantes para a moral pública.
Veja-se este caso recente da decisão de um órgão disciplinar da FPF sobre o processo do Apito Dourado em que foi liminarmente desprezada a contribuição de uma testemunha por não lhe ser reconhecida credibilidade.
É um facto que vivemos numa sociedade altamente civilizada onde, por exemplo, quem trabalha ou trabalhou numa casa noctívaga não tem credibilidade, enquanto aos clientes da mesma casa noctívaga é reconhecida toda a credibilidade desde que por lá paguem as contas e exijam os seus números de identificação fiscal nas facturas. É assim que o país progride.
Todo este relambório vem a propósito de Octávio Machado, o ex-director do futebol do Sporting, e da entrevista que concedeu à CMTV tendo como tema central a sua saída voluntária da estrutura do clube de Alvalade que, agora sem ele e segundo as suas próprias palavras, está repleta de "passarinhos", que é a mesma coisa do que dizer que a incompetência campeia.
A mudança de campo de Octávio provocou, naturalmente, acesas discussões entre a opinião pública dividida no que respeita à credibilidade a emprestar ao funcionário diligente e leal à presidência que passou, com a mesma verve de sempre, a dissidente leal à dissidência.
Feridos pela doença intratável de clubismo, milhares de fazedores de opinião – os profissionais dos estúdios de TV e das redes sociais e os amadores que pululam em todos os cafés e cervejarias do país – fizeram passar as declarações contundentes de Octávio Machado pelo crivo da querida credibilidade e chegaram a dois tipos de conclusão: a primeira, aos olhos dos sportinguistas afectos ao regime, é que o ex-dirigente em causa não tem credibilidade nenhuma, e a segunda, aos olhos da oposição interna e dos rivais externos é que o mesmo ex-dirigente tem toda a credibilidade do mundo.
Curiosamente, antes da demissão de Octávio ser uma hipótese a considerar nos terreiros, as opiniões destes grupos em confronto eram em tudo contrárias.
E os que acreditavam no "palmelão" que reunia em si o suprassumo das qualidades de que um homem necessita para ser levado a sério são agora os que menosprezam e fazem por ignorar olimpicamente as opiniões do "palmelinho" a quem acusam do ressabiamento dos não-credíveis. E vice-versa. "Olhó passarinho!", gritavam os antigos fotógrafos de feira.
"Olhó passarinho!", diz agora o novo Octávio que, em boa verdade, é o mesmo Octávio de sempre."


Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manhã 

sexta-feira, julho 21, 2017

A liberdade de inexpressão

O nosso futebol conta com a desajuda de uma regulamentação disciplinar frequentemente idiota que, na sua essência, afronta a própria Constituição. 

O futebol julga-se um Estado dentro do Estado com os seus tribunais próprios e não deixa de ser verdade que ao longo de décadas, de regimes e de modas, tem-se imposto imperialmente num patamar de exceções que ninguém se atreve a colocar em causa. Até um dia… 

Tomemos os casos das "suspensões" do presidente e do diretor de comunicação do Sporting e do diretor de comunicação do FC Porto por força de um uso torrencial de palavreado considerado difamatório para uns quantos "agentes" da indústria. 

Um qualquer dos muitos órgãos disciplinares da Liga ou da FPF entendeu suspender os referidos palestrantes das suas funções considerando, abusivamente, que a função de falar em público ou para o público se encontra abrangida pela penalização. 

Ora não foi para isto que se fez o 25 de Abril. Os órgãos disciplinares do futebol português têm o dever de salvaguardar o bom-nome da sua tropa mas não podem, em caso algum, mandar calar as vozes e as nozes que, mesmo passando das marcas, se atrevem a atirar para o lamaçal os costumes diários das suas gentes. 

O que significa, em termos práticos, a "suspensão" de um dirigente ou de um funcionário de um clube? Basicamente, é ficar calado por lei tal como nos tempos do Estado Novo se silenciavam as vozes discordantes. Nada disto faz sentido no século XXI. 

Se há matéria impura nas alocuções dos homens do futebol existem os tribunais civis para se resolverem essas questões. Já terão dado conta, certamente, que a partir do momento em que Bruno de Carvalho e Nuno Saraiva foram "suspensos" e mandados calar todas as notícias nos três jornais desportivos sobre a vida política e desportiva do Sporting se iniciam com uma frase-truque – "segundo fonte oficial de Alvalade…" – e que é também um insulto à liberdade de expressão em geral, à ética profissional dos jornalistas e à inteligência dos seus leitores. 

O diretor-suspenso de comunicação do FC Porto lamentou há dias no Twitter este estado das coisas citando a Constituição no que diz respeito à expressão livre do pensamento consagrada na lei. Tem razão Francisco J. Marques. À Constituição não escapa nada e ainda bem. 

Até dispõe de um artigo dedicado à "violação de correspondência ou de telecomunicações" em que aponta uma "pena até um ano de prisão" para "quem, sem consentimento, divulgar o conteúdo de cartas, encomendas, escritos fechados ou telecomunicações". À bola o que é da bola, à justiça o que é da justiça. 



OUTRAS HISTÓRIAS 
Investida castelhana por mar  
Resta agora a Ronaldo contratar a padeira de Aljubarrota  
As autoridades fiscais espanholas avançaram até ao iate onde Cristiano Ronaldo passa férias com a corte que sempre o acompanha nestas ocasiões estivais e procederam a "buscas" na embarcação. 

O jogador e "capitão" do Real Madrid tem vindo a ser acusado de beneficiar de um ardiloso esquema de fuga ao fisco e está sob a mira de uma investigação judicial. 

No mesmo dia em que viu a polícia entrar-lhe pelo barquinho, Cristiano Ronaldo publicou uma fotografia dele próprio com toda a sua alegre trupe escalonados numa piscina suficientemente grande para caberem todos. Não se sabe o que o fisco espanhol encontrou no iate. 

Sabe-se apenas que as relações diplomáticas entre os dois países peninsulares podem vir a ser abaladas por este incidente que põe em causa uma paz de séculos. 

Resta a Cristiano Ronaldo continuar a marcar golos e contratar a padeira de Aljubarrota para que, de pá na mão, impeça a progressão castelhana como o fez há 7 séculos em Aljubarrota. Invejosos.



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

Aproveito para me demitir também

A grande semelhança entre o Ministério Público e o chinelo da minha avó – satisfaço finalmente a curiosidade de quem sempre quis saber – é a seguinte: ambos se dedicam a punir quem vai ilicitamente ao futebol. Poucas pessoas estarão mais habilitadas para escrever sobre os três secretários de Estado que se demitiram por terem ido ver jogos da selecção a França, a expensas da Galp. Já estive em situações parecidas. No meu caso, havia infracções de três tipos: ou eu estava no futebol quando já devia estar em casa; ou estava no futebol quando devia estar a cumprir outro tipo de obrigações; ou estava no futebol quando devia estar no futebol, mas rompia botas ortopédicas que tinham sido adquiridas na véspera. É certo que nunca estive no futebol a convite de empresas que tinham um contencioso fiscal com o Estado e sobre as quais eu me encontrava em posição de tomar decisões, mas creio que, se isso tivesse acontecido, o chinelo da minha avó me teria punido na mesma. O essencial é: eu sei o que é ser castigado por estar ilicitamente no futebol. Mais: comparado com os castigos que suportei, os que foram impostos aos secretários de Estado são para meninos. Nem se pode dizer, aliás, que os castigos foram impostos. Foram eles que se demitiram. Quando souberam que o Ministério Público ia constituí-los arguidos, resolveram antecipar-se e constituir-se arguidos primeiro – porque, provavelmente, ao longo do último ano aprenderam que não devem aceitar nada de ninguém. Já no meu caso, o castigo da ilicitude futebolística consubstanciava-se no impacto da dura sola nas minhas tenras nádegas. Não havia maneira de eu me antecipar e punir as minhas nádegas por minha própria iniciativa. Até porque, se o fizesse, acabaria por ser punido por dois motivos: ilicitude futebolística e uso indevido e não autorizado do chinelo. Imagino que sair do governo custe, mas desafio estes secretários de Estado a experimentarem o chinelo da minha avó. Isso sim, é uma punição moralizadora da vida política e da sociedade em geral. O Ministério Público que me desculpe, mas não moraliza nada enquanto não obtiver um chinelo credível e com sentido de Estado.


Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

sábado, julho 15, 2017

O homem das casernas

Julgo não estar longe da verdade se disser que o adjectivo “fandanga” é usado exclusivamente para qualificar determinada tropa. Nunca, ao longo de toda a minha vida de falante de português, registei outra utilização do termo. Parece-me improvável que não haja, neste vasto mundo, mais coisas fandangas, mas o certo é que o povo não as designa com esse apodo. Talvez suceda que, quando os fandangos decorrem na tropa, se evidenciem mais. Que haja situações fandangas civis não sobressalta tanto como a existência de fandangos na tropa, como é óbvio. Considerando o rigor e a exigência militares, as ocorrências fandangas castrenses acabam por sobressair. Todos conhecemos o esmero e a firmeza com que um militar é obrigado a desmontar a arma, limpar a arma, apresentar a arma, cruzar a arma, descansar a arma. Seria de esperar que mantivesse o mesmo zelo a guardar a arma. Uma vez que contamos com a tropa para nos defender, o assalto ao paiol de Tancos parece indicar a necessidade de uma tropa que defenda a tropa. E, talvez, de uma tropa que defenda a tropa que defenda a tropa.

Eu fui, aliás com justiça, dado como inapto para o serviço militar. O ministro da Defesa, infelizmente, não parece muito mais apto – e no entanto pode comandar as forças armadas. O desleixo na protecção do paiol sugere que as forças armadas estavam, na verdade, armadas em boas. E o roubo repercute-se na própria designação: “forças armadas” talvez seja, neste momento, ao menos até certo ponto, um exagero, na medida em que as forças acabam de ser desarmadas. É possível que o chefe supremo das forças armadas, o Presidente da República, tenha amolecido a tropa com a estratégia do afecto. Os militares vêem gatunos a encher um camião de munições e optam pela via do diálogo e da compreensão. Nada contra o afecto, mas de vez em quando deve ser temperado com uma ou outra manifestação de bruteza.

Neste momento, creio que só Pedro Passos Coelho pode salvar o governo. O país precisa que o líder da oposição dê uma demonstração de patriotismo que faça jus ao brioso pin que ostenta na lapela e afirme, perante os microfones, que, de acordo com o que ouviu dizer a uma pessoa de família, o material de guerra roubado já foi usado para cometer um suicídio. O ministro Azeredo Lopes está à espera, ansioso.



Fonte: Ricardo Araujo Pereira @ Visão

sexta-feira, julho 14, 2017

Uma questão de reputação

Como se tem vindo a provar, e com provas abundantes, não deverá valer grande coisa o departamento de informática do Benfica. Já o departamento de marketing continua a dar cartas com um descaramento que deixa atónitos os seus adversários. Depois do êxito que foram os cachecóis "Colinho" e "A culpa é do Benfica", o marketing da Luz vende agora lugares no estádio lançando uma campanha inspirada nas emissões do Porto Canal que tiveram por tema a questão dos e-mails. É este o sumptuoso descaramento que desespera a operosa fábrica de insultos que entrou em funções de dois turnos quando o Benfica se viu bicampeão, de três turnos no momento em que o Benfica se viu tricampeão e de quatro turnos em maio. Se o Benfica for pentacampeão ninguém sabe o que poderá acontecer porque não há turnos que cheguem para tanta função. 

A estratégia do marketing do Benfica é claríssima. Trata-se de desvalorizar os ataques externos ridicularizando-os em termos funcionais de modo a que a sua utilização pelo "inimigo" provoque sorrisos no lugar de suscitar acabrunhamento ou fúria. Nesta última campanha é, no entanto, mais flagrante a ridicularização do sotaque "à Porto" do comunicador oficial do Dragão do que, propriamente, a ridicularização da capitosa questão em si que trata de hipotéticos ou não hipotéticos e-mails suficientemente embaraçantes para o bom-nome do Benfica ainda que tenham sido, como tudo indica, gamados. 

Seguindo, obrigatoriamente, com atenção redobrada a estratégia do marketing da Luz terão pensado os responsáveis pela recente Gala do Sporting que a melhor maneira de acabar de uma vez por todas com o epíteto negativo que se "colou" à definição da sua própria festa por iniciativa do seu próprio presidente – "a p… da gala" – seria abrir a sessão com um exorcizante "bem-vindos à p… da gala" tal como veio a suceder. Mas terão exorcizado alguma coisa? Duvida-se. A grande e fulcral diferença entre as estratégias dos marketings da Segunda Circular é que o Benfica, com a sua coleção de cachecóis e de vídeos, achincalha os ataques (externos) enquanto o Sporting entendeu que achincalhar o ataque (interno) movido pelo presidente do clube numa conversa alegre com jornalistas teria, exatamente, os mesmos efeitos práticos. Mas não, não teve. Antes pelo contrário, só piorou a reputação pública da dita Gala. Resta saber se ainda veremos a curiosa frase de boas-vindas da soirée impressa e à venda em cachecóis verdes oficiais. Ou em cachecóis vermelhos do outro lado da rua porque seria, aí sim, mais um estrondoso êxito comercial. 



Vídeo-árbitro é a melhor invenção desde a invenção das balizas 
A seleção saiu da Rússia com o 3º lugar do pódio da Taça das Confederações – bem bom para quem não vive habitualmente nestes patamares competitivos - e com a alegria de poder voltar a casa clamando bem alto: o vídeo-árbitro foi a melhor coisa que se inventou para o futebol desde a invenção das balizas! E porquê? Porque só nesta competição-relâmpago os portugueses viram os meios tecnológicos que vão impor à força a verdade desportiva perdoar-lhes duas grandes penalidades tão descaradas que até meteram dó. 

Aconteceu nos jogos com o Chile e com o México terem José Fonte e Pepe cometido infrações na nossa área que passaram incólumes pelo crivo do vídeo-árbitro internacional. Também no jogo da final escaparam os chilenos a uma grande penalidade tão óbvia que foi assunto de conversa à escala planetária. O que o vídeo-árbitro acrescenta ao futebol são mais uns quantos nomes de árbitros-sentados que serão tão ou mais insultados do que os árbitros-em-pé. Uma animação.




Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

Ressurreição de vivos

Portugal teve esta semana duas excelentes notícias: um avião não caiu e uma pessoa não se suicidou. Talvez não sejam excelentes notícias. É possível que sejam excelentes não-notícias. Ou, mais precisamente, excelentes desmentidos de más não-notícias. Sejam o que forem, aceito. Foi agradável saber que um avião não tinha caído e que uma pessoa não se tinha suicidado, até porque o avião esteve despenhado durante cerca de duas horas e a pessoa ainda chegou a permanecer enforcada durante uns bons 45 minutos. É como a ressurreição de Lázaro mas sem Lázaro ter morrido. Assim poupa-se trabalho, quer a Lázaro, que não tem de falecer, quer a Jesus, que não desperdiça impositio manuum onde não há necessidade. Apesar de descoberto por acaso, parece-me que o desmentido de não-notícias poderia transformar-se numa instituição. Gostaria de ligar a televisão e passar a ouvir: “Esta manhã, pelas 11h32, um terramoto não arrasou o País. O sismo, que não registou 8,2 na escala de Richter, não teve epicentro em Viseu.” Ou: “Ontem, um monstro marinho não comeu 17 banhistas na praia do Castelo.” As notícias informam, mas muitas vezes preocupam. Os desmentidos de não-notícias envolvem criatividade e proporcionam alívio. Têm, sobre as notícias, uma superioridade evidente.

O primeiro não-caso a não-abalar o País foi a não-queda do não-avião. De acordo com a comunicação social, um avião de combate aos incêndios ter-se-ia despenhado. Uma jornalista fez uma longa declaração, dizendo que havia sido inadmissivelmente induzida em erro, tanto que tinha confirmado a informação junto de, e cito, “duas pessoas diferentes”. Esta expressão interessa-me, se me permitem uma nota marginal. A ideia de que uma notícia tenha de ser confirmada por duas pessoas diferentes constitui uma falha na deontologia jornalística porque parece inviabilizar que determinado facto possa ser confirmado por gémeos. Uma notícia confirmada por duas pessoas iguais devia ter a mesma credibilidade que outra confirmada por duas pessoas diferentes. Ou talvez até menos, dado que é muito mais fácil encontrar duas pessoas diferentes do que duas pessoas iguais.

O segundo não-caso foi o do não-suicídio, do qual Passos Coelho alegou ter tido conhecimento através de uma pessoa de família. O provedor da Santa Casa de Pedrógão Grande veio mais tarde confirmar e desmentir o presidente do PSD: confirmar porque tinha sido ele a dar-lhe a não-
-notícia, desmentir porque ele não é da família de Passos Coelho (a não ser que a família política conte). 
É, por isso, uma ocorrência ainda mais intrincada, na medida em que a não-notícia foi veiculada por uma não-fonte. Confesso que não sei o que não-pensar de tudo isto.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

segunda-feira, julho 03, 2017

O bruxo é para manter

Tardava uma explicação cabal, científica e, por isso mesmo, limpa de facciosismo, que esclarecesse o público pagante dos nossos estádios sobre as grandes anormalidades que se têm vindo a passar no domínio das competições oficiais quer sejam patrocinadas pela moderna Liga de Clubes quer pela velha Federação. 

Chegou, finalmente, e ainda muito a tempo de iluminar com as luzes da razão pura as mentes capciosas e bolorentas que nos remetem para tempos medievos em discussões e teorias que só medram na ignorância dos factos, das causas e dos efeitos. 

Estarão certamente recordados, por exemplo, daquela grande anormalidade ocorrida no estádio do Sporting ao minuto 72 do dérbi do campeonato de 2015/2016 quando o simpático costa-riquenho Bryan Ruiz falhou um golo de baliza aberta depois de ter recebido a bola, perfeita, dos pés de um Slimani que o serviu com uma magnificência raramente vista. 

- Isto é bruxedo! – gritou-se nas bancadas do estádio e gritou-se também, pudera, em muitos lares e em muitas redações de jornais. 

- Não é nada bruxedo, é aselhice! – contrapuseram os céticos. 

Mas estavam errados os céticos. Aconteceu mesmo bruxedo. Soube-se agora, 16 meses passados. Foi por artes mágicas que todos vimos Bryan Ruiz falhar o pontapé que colocaria o Sporting na rota do título. 

E o que dizer do pontapé de livre do Lindelof que já nesta primavera colou Patrício ao chão? Está também agora explicadíssimo aquele momento de loucura do mexicano Herrera que, nos segundos finais do FC Porto-Benfica, na primeira volta da última Liga, ofereceu disparatadamente um pontapé de canto aos adversários, que aproveitaram para, sem piedade, empatar o jogo através de uma cabeçada acertadíssima do Lisandro López. 

- Isto é burrice! – muito se gritou nas bancadas do Dragão. 

Injustamente, está agora esclarecido, porque Herrera não teve culpa alguma. Foi também bruxedo. Todas estas informações foram transmitidas ao país e à polícia de costumes na noite da última terça-feira no Porto Canal. E em boa hora o foram para que se faça justiça a gente boa e trabalhadora como Lopetegui e Nuno Espírito Santo, vítimas também eles do bruxo contratado na Guiné pelo presidente do Benfica. 

Estas revelações do Porto Canal vão, por certo, fazer rolar muitas cabeças. Onde vão rolar as cabeças é que não se sabe. No entanto, aqui fica um pedido singelo ao presidente do Benfica: o bruxo, por amor de Deus, é para manter. O bruxo e o Fejsa, claro. 



Outras histórias... 
A seleção soube fazer justiça  
Síndrome da equipa favorita na hora das grandes penalidades 
Com a eliminação nas meias-finais da Taça das Confederações voltou a nossa seleção a usufruir do estatuto de patinho-pobre da pátria e o nosso selecionador passou de bestial a besta. 

Até Cristiano Ronaldo voltou a cair em desgraça acusado de ligar mais ao rancho de filhos do que ao rancho das quinas. Sobre os pontapés de penalidade falhados na hora do desempate também já se disseram muitos disparates. 

Que, por exemplo, os jogadores estavam com vontade de férias, o que não faz sentido porque, perdendo, teriam sempre de jogar mais uma vez na Rússia para a atribuição do 3º lugar. O que atacou Ricardo Quaresma, João Moutinho e Nani não foi a urgência do descanso. 

Foi a consciência de que seria muito injusta a eliminação do Chile depois de lhe ter sido sonegado um penálti e de ter visto a bola ir duas vezes ao poste da baliza de Patrício nos instantes cruciais do prolongamento. 

Portugal, que era o favorito, fez justiça contra si mesmo pelos seus próprios pés. Foi nobre ou não foi?



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

sexta-feira, junho 30, 2017

Um disco riscado chamado Portugal

Interrompemos esta emissão para fazer uma ligação em directo ao local onde lavra o violento incêndio. O nosso enviado especial vai agora perguntar a uma vítima como é que ela se sente.

– Bom dia. Como é que se sente?

Obrigado. Em estúdio temos um especialista. Não é surpreendente que esta vítima se sinta demasiado aturdida para explicar como é que se sente?

– É. Eu esperava lucidez e frases completas.

Agora pedia-lhe que falasse sobre isto durante cinco horas.

– Com certeza. Estamos perante uma tragédia enorme que comporta elevados custos materiais e humanos. A área ardida leva décadas a recuperar. Situações como esta não podem voltar a acontecer. Não me lembro de uma coisa assim desde o ano passado. A nuvem de fumo vê-se do espaço. 
A floresta é um activo extremamente importante. 
Há que dotar os bombeiros de meios. Há que investir na prevenção. Há que corrigir os problemas do ordenamento do território. Não é hora de apontar dedos, mas a culpa não pode morrer solteira. Adeus e até para o ano.

Interrompemos esta emissão para fazer uma ligação em directo ao local onde lavra o violento incêndio. Ao que a nossa reportagem conseguiu apurar, há várias vítimas e nenhuma consegue verbalizar com exactidão o que sente. Comigo em estúdio está um especialista. Estamos perante o quê?

– Uma tragédia enorme.

O que é que ela comporta?

– Elevados custos materiais e humanos.

A floresta é um activo quê?

– Extremamente importante.

Vamos agora à sua popular rubrica dos há ques, se não se importa.

– Há que dotar os bombeiros de meios. Há que investir na prevenção. Há que corrigir os problemas do ordenamento do território.

Bravo. Qual é a dimensão desta tragédia?

– O grupo de jornalistas no terreno vê-se do espaço.

Obrigado e até para o ano.

Interrompemos esta emissão para blá blá blá. O nosso enviado especial vai agora perguntar blá blá blá.

– Bom dia. Blá blá blá?

Obrigado. Comigo em estúdio, um especialista.

– Estamos perante uma blá blá blá que comporta elevados blá blá blá. A área blá leva blá a blá blá. Situações como esta não podem blá blá blá. A floresta é um blá blá blá extremamente blá blá blá. Há que bombeiros. Há que prevenção. Há que ordenamento do território. Não é hora de blá, mas a culpa não pode blá. Adeus e até para o ano.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

segunda-feira, junho 26, 2017

Afinal qual é o problema?

O futebol vive de ciclos. E, como é próprio dos ciclos, todos têm um início e um fim. Começam e acabam essas revoluções em alegria ou em incomensurável tristeza, dependendo das cores das paixões em causa, mas é o "meio" dos ciclos que mais custa a passar para quem os vive em perda. 

Nestes transes, as tentativas de cortar o mal pela raiz obedecem a um reportório curtíssimo que leva o público mais qualificado a encarar com desconfiança e mal disfarçado tédio as sucessivas repetições das panaceias e dos tratamentos salvíficos. 

Tomemos por exemplo o Benfica. No início deste século entenderam os seus dirigentes que a solução para combater a dominância do FC Porto era contratar antigos jogadores dos azuis-e-brancos, atletas consagrados nas Antas e, posteriormente, no Dragão de modo a que esses nomes – e só os nomes – bastassem para repor o lindo emblema da águia na senda de um qualquer ciclo triunfal. 

E, assim, foram chegando sujeitos de talento apreciável como Zahovic e Drulovic e tantos outros, menos artísticos, como Argel ou João Manuel Pinto. 

O resultado prático foi igual a zero mas a "galera", como dizem os brasileiros, vibrou com a chegada desses jogadores aureolados no campo do inimigo acreditando, piamente, que esses títulos alheios se acabariam por transferir com esses mesmos jogadores para o Estádio da Luz. O que não viria a suceder, obviamente. 

O facto de o FC Porto ter dado uma fortuna a Maxi Pereira, que tanto tinha contribuído para o ainda incipiente renascer do Benfica, foi indício sólido de que a tal discussão sobre a hegemonia estava a mudar de campo. Maxi leva já duas temporadas inteiras no Dragão e ainda não acrescentou meio título sequer ao seu palmarés e ao palmarés do clube que o contratou. 

Já o Sporting vem percorrendo o mesmo trilho e, deste modo, foram chegando a Alvalade ex-campeões do Benfica como Bruno César e Markovic, velhos conhecidos do treinador Jorge Jesus. E, agora, será Fábio Coentrão se os exames médicos e o acordo sobre vencimentos se concluírem com o sucesso esperado. 

A turba dos dois lados da Segunda Circular indigna-se por estes dias com o negócio Coentrão. Uns indignam-se porque o homem das Caxinas disse um dia que em Portugal só jogava no Benfica e os outros porque o mesmo homem disse um dia que era sportinguista desde pequenino. 

Na realidade, ninguém tem razão porque exigir constância amorosa a um profissional de futebol é mania não do século XX mas do século XIX. São coisinhas destas que ajudam a fazer do futebol um espetáculo de multidões. E qual é o problema? 



Outras histórias... 
A maior família de Portugal  Silva, Silva, Silva & Cristiano Ronaldo e assim vamos lá  
Do jogo pobrezinho com o México (que deu empate) para o jogo eficiente com os russos (que deu vitória) na casa deles, Fernando Santos procedeu a umas quantas alterações na equipa nacional que resultaram muito bem em termos da qualidade de jogo dos campeões da Europa (sim, ainda parece impossível mas somos nós!). 

Foi a consagração do saber tático do selecionador português e foi também a consagração de todos os Silvas de Portugal, o apelido mais comum entre nós. Do encontro com o México para o desafio com a Rússia entraram três Silvas na equipa – Adrien Silva, Bernardo Silva e André Silva – e a aposta não podia ter corrido melhor. 

É claro que sem Cristiano Ronaldo, o autor do golo da vitória portuguesa em Moscovo, não há Silvas em Portugal que cheguem para fazer da nossa seleção uma mais do que séria candidata ao triunfo na Taça das Confederações. 

Mas para isso é preciso não descansar hoje frente à Nova Zelândia independentemente do número de Silvas em campo.




Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha