domingo, julho 23, 2017

Octávio e os passarinhos

Nestas conversas do futebol, fala-se muito de "credibilidade" como a qualidade sem a qual ninguém pode ser levado a sério.
Até nas esferas mais altas da nossa Justiça desportiva é essencial essa qualidade de se poder ser levado a sério de modo a não ferir decisões importantes para a moral pública.
Veja-se este caso recente da decisão de um órgão disciplinar da FPF sobre o processo do Apito Dourado em que foi liminarmente desprezada a contribuição de uma testemunha por não lhe ser reconhecida credibilidade.
É um facto que vivemos numa sociedade altamente civilizada onde, por exemplo, quem trabalha ou trabalhou numa casa noctívaga não tem credibilidade, enquanto aos clientes da mesma casa noctívaga é reconhecida toda a credibilidade desde que por lá paguem as contas e exijam os seus números de identificação fiscal nas facturas. É assim que o país progride.
Todo este relambório vem a propósito de Octávio Machado, o ex-director do futebol do Sporting, e da entrevista que concedeu à CMTV tendo como tema central a sua saída voluntária da estrutura do clube de Alvalade que, agora sem ele e segundo as suas próprias palavras, está repleta de "passarinhos", que é a mesma coisa do que dizer que a incompetência campeia.
A mudança de campo de Octávio provocou, naturalmente, acesas discussões entre a opinião pública dividida no que respeita à credibilidade a emprestar ao funcionário diligente e leal à presidência que passou, com a mesma verve de sempre, a dissidente leal à dissidência.
Feridos pela doença intratável de clubismo, milhares de fazedores de opinião – os profissionais dos estúdios de TV e das redes sociais e os amadores que pululam em todos os cafés e cervejarias do país – fizeram passar as declarações contundentes de Octávio Machado pelo crivo da querida credibilidade e chegaram a dois tipos de conclusão: a primeira, aos olhos dos sportinguistas afectos ao regime, é que o ex-dirigente em causa não tem credibilidade nenhuma, e a segunda, aos olhos da oposição interna e dos rivais externos é que o mesmo ex-dirigente tem toda a credibilidade do mundo.
Curiosamente, antes da demissão de Octávio ser uma hipótese a considerar nos terreiros, as opiniões destes grupos em confronto eram em tudo contrárias.
E os que acreditavam no "palmelão" que reunia em si o suprassumo das qualidades de que um homem necessita para ser levado a sério são agora os que menosprezam e fazem por ignorar olimpicamente as opiniões do "palmelinho" a quem acusam do ressabiamento dos não-credíveis. E vice-versa. "Olhó passarinho!", gritavam os antigos fotógrafos de feira.
"Olhó passarinho!", diz agora o novo Octávio que, em boa verdade, é o mesmo Octávio de sempre."


Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manhã 

sexta-feira, julho 21, 2017

A liberdade de inexpressão

O nosso futebol conta com a desajuda de uma regulamentação disciplinar frequentemente idiota que, na sua essência, afronta a própria Constituição. 

O futebol julga-se um Estado dentro do Estado com os seus tribunais próprios e não deixa de ser verdade que ao longo de décadas, de regimes e de modas, tem-se imposto imperialmente num patamar de exceções que ninguém se atreve a colocar em causa. Até um dia… 

Tomemos os casos das "suspensões" do presidente e do diretor de comunicação do Sporting e do diretor de comunicação do FC Porto por força de um uso torrencial de palavreado considerado difamatório para uns quantos "agentes" da indústria. 

Um qualquer dos muitos órgãos disciplinares da Liga ou da FPF entendeu suspender os referidos palestrantes das suas funções considerando, abusivamente, que a função de falar em público ou para o público se encontra abrangida pela penalização. 

Ora não foi para isto que se fez o 25 de Abril. Os órgãos disciplinares do futebol português têm o dever de salvaguardar o bom-nome da sua tropa mas não podem, em caso algum, mandar calar as vozes e as nozes que, mesmo passando das marcas, se atrevem a atirar para o lamaçal os costumes diários das suas gentes. 

O que significa, em termos práticos, a "suspensão" de um dirigente ou de um funcionário de um clube? Basicamente, é ficar calado por lei tal como nos tempos do Estado Novo se silenciavam as vozes discordantes. Nada disto faz sentido no século XXI. 

Se há matéria impura nas alocuções dos homens do futebol existem os tribunais civis para se resolverem essas questões. Já terão dado conta, certamente, que a partir do momento em que Bruno de Carvalho e Nuno Saraiva foram "suspensos" e mandados calar todas as notícias nos três jornais desportivos sobre a vida política e desportiva do Sporting se iniciam com uma frase-truque – "segundo fonte oficial de Alvalade…" – e que é também um insulto à liberdade de expressão em geral, à ética profissional dos jornalistas e à inteligência dos seus leitores. 

O diretor-suspenso de comunicação do FC Porto lamentou há dias no Twitter este estado das coisas citando a Constituição no que diz respeito à expressão livre do pensamento consagrada na lei. Tem razão Francisco J. Marques. À Constituição não escapa nada e ainda bem. 

Até dispõe de um artigo dedicado à "violação de correspondência ou de telecomunicações" em que aponta uma "pena até um ano de prisão" para "quem, sem consentimento, divulgar o conteúdo de cartas, encomendas, escritos fechados ou telecomunicações". À bola o que é da bola, à justiça o que é da justiça. 



OUTRAS HISTÓRIAS 
Investida castelhana por mar  
Resta agora a Ronaldo contratar a padeira de Aljubarrota  
As autoridades fiscais espanholas avançaram até ao iate onde Cristiano Ronaldo passa férias com a corte que sempre o acompanha nestas ocasiões estivais e procederam a "buscas" na embarcação. 

O jogador e "capitão" do Real Madrid tem vindo a ser acusado de beneficiar de um ardiloso esquema de fuga ao fisco e está sob a mira de uma investigação judicial. 

No mesmo dia em que viu a polícia entrar-lhe pelo barquinho, Cristiano Ronaldo publicou uma fotografia dele próprio com toda a sua alegre trupe escalonados numa piscina suficientemente grande para caberem todos. Não se sabe o que o fisco espanhol encontrou no iate. 

Sabe-se apenas que as relações diplomáticas entre os dois países peninsulares podem vir a ser abaladas por este incidente que põe em causa uma paz de séculos. 

Resta a Cristiano Ronaldo continuar a marcar golos e contratar a padeira de Aljubarrota para que, de pá na mão, impeça a progressão castelhana como o fez há 7 séculos em Aljubarrota. Invejosos.



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

Aproveito para me demitir também

A grande semelhança entre o Ministério Público e o chinelo da minha avó – satisfaço finalmente a curiosidade de quem sempre quis saber – é a seguinte: ambos se dedicam a punir quem vai ilicitamente ao futebol. Poucas pessoas estarão mais habilitadas para escrever sobre os três secretários de Estado que se demitiram por terem ido ver jogos da selecção a França, a expensas da Galp. Já estive em situações parecidas. No meu caso, havia infracções de três tipos: ou eu estava no futebol quando já devia estar em casa; ou estava no futebol quando devia estar a cumprir outro tipo de obrigações; ou estava no futebol quando devia estar no futebol, mas rompia botas ortopédicas que tinham sido adquiridas na véspera. É certo que nunca estive no futebol a convite de empresas que tinham um contencioso fiscal com o Estado e sobre as quais eu me encontrava em posição de tomar decisões, mas creio que, se isso tivesse acontecido, o chinelo da minha avó me teria punido na mesma. O essencial é: eu sei o que é ser castigado por estar ilicitamente no futebol. Mais: comparado com os castigos que suportei, os que foram impostos aos secretários de Estado são para meninos. Nem se pode dizer, aliás, que os castigos foram impostos. Foram eles que se demitiram. Quando souberam que o Ministério Público ia constituí-los arguidos, resolveram antecipar-se e constituir-se arguidos primeiro – porque, provavelmente, ao longo do último ano aprenderam que não devem aceitar nada de ninguém. Já no meu caso, o castigo da ilicitude futebolística consubstanciava-se no impacto da dura sola nas minhas tenras nádegas. Não havia maneira de eu me antecipar e punir as minhas nádegas por minha própria iniciativa. Até porque, se o fizesse, acabaria por ser punido por dois motivos: ilicitude futebolística e uso indevido e não autorizado do chinelo. Imagino que sair do governo custe, mas desafio estes secretários de Estado a experimentarem o chinelo da minha avó. Isso sim, é uma punição moralizadora da vida política e da sociedade em geral. O Ministério Público que me desculpe, mas não moraliza nada enquanto não obtiver um chinelo credível e com sentido de Estado.


Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

sábado, julho 15, 2017

O homem das casernas

Julgo não estar longe da verdade se disser que o adjectivo “fandanga” é usado exclusivamente para qualificar determinada tropa. Nunca, ao longo de toda a minha vida de falante de português, registei outra utilização do termo. Parece-me improvável que não haja, neste vasto mundo, mais coisas fandangas, mas o certo é que o povo não as designa com esse apodo. Talvez suceda que, quando os fandangos decorrem na tropa, se evidenciem mais. Que haja situações fandangas civis não sobressalta tanto como a existência de fandangos na tropa, como é óbvio. Considerando o rigor e a exigência militares, as ocorrências fandangas castrenses acabam por sobressair. Todos conhecemos o esmero e a firmeza com que um militar é obrigado a desmontar a arma, limpar a arma, apresentar a arma, cruzar a arma, descansar a arma. Seria de esperar que mantivesse o mesmo zelo a guardar a arma. Uma vez que contamos com a tropa para nos defender, o assalto ao paiol de Tancos parece indicar a necessidade de uma tropa que defenda a tropa. E, talvez, de uma tropa que defenda a tropa que defenda a tropa.

Eu fui, aliás com justiça, dado como inapto para o serviço militar. O ministro da Defesa, infelizmente, não parece muito mais apto – e no entanto pode comandar as forças armadas. O desleixo na protecção do paiol sugere que as forças armadas estavam, na verdade, armadas em boas. E o roubo repercute-se na própria designação: “forças armadas” talvez seja, neste momento, ao menos até certo ponto, um exagero, na medida em que as forças acabam de ser desarmadas. É possível que o chefe supremo das forças armadas, o Presidente da República, tenha amolecido a tropa com a estratégia do afecto. Os militares vêem gatunos a encher um camião de munições e optam pela via do diálogo e da compreensão. Nada contra o afecto, mas de vez em quando deve ser temperado com uma ou outra manifestação de bruteza.

Neste momento, creio que só Pedro Passos Coelho pode salvar o governo. O país precisa que o líder da oposição dê uma demonstração de patriotismo que faça jus ao brioso pin que ostenta na lapela e afirme, perante os microfones, que, de acordo com o que ouviu dizer a uma pessoa de família, o material de guerra roubado já foi usado para cometer um suicídio. O ministro Azeredo Lopes está à espera, ansioso.



Fonte: Ricardo Araujo Pereira @ Visão

sexta-feira, julho 14, 2017

Uma questão de reputação

Como se tem vindo a provar, e com provas abundantes, não deverá valer grande coisa o departamento de informática do Benfica. Já o departamento de marketing continua a dar cartas com um descaramento que deixa atónitos os seus adversários. Depois do êxito que foram os cachecóis "Colinho" e "A culpa é do Benfica", o marketing da Luz vende agora lugares no estádio lançando uma campanha inspirada nas emissões do Porto Canal que tiveram por tema a questão dos e-mails. É este o sumptuoso descaramento que desespera a operosa fábrica de insultos que entrou em funções de dois turnos quando o Benfica se viu bicampeão, de três turnos no momento em que o Benfica se viu tricampeão e de quatro turnos em maio. Se o Benfica for pentacampeão ninguém sabe o que poderá acontecer porque não há turnos que cheguem para tanta função. 

A estratégia do marketing do Benfica é claríssima. Trata-se de desvalorizar os ataques externos ridicularizando-os em termos funcionais de modo a que a sua utilização pelo "inimigo" provoque sorrisos no lugar de suscitar acabrunhamento ou fúria. Nesta última campanha é, no entanto, mais flagrante a ridicularização do sotaque "à Porto" do comunicador oficial do Dragão do que, propriamente, a ridicularização da capitosa questão em si que trata de hipotéticos ou não hipotéticos e-mails suficientemente embaraçantes para o bom-nome do Benfica ainda que tenham sido, como tudo indica, gamados. 

Seguindo, obrigatoriamente, com atenção redobrada a estratégia do marketing da Luz terão pensado os responsáveis pela recente Gala do Sporting que a melhor maneira de acabar de uma vez por todas com o epíteto negativo que se "colou" à definição da sua própria festa por iniciativa do seu próprio presidente – "a p… da gala" – seria abrir a sessão com um exorcizante "bem-vindos à p… da gala" tal como veio a suceder. Mas terão exorcizado alguma coisa? Duvida-se. A grande e fulcral diferença entre as estratégias dos marketings da Segunda Circular é que o Benfica, com a sua coleção de cachecóis e de vídeos, achincalha os ataques (externos) enquanto o Sporting entendeu que achincalhar o ataque (interno) movido pelo presidente do clube numa conversa alegre com jornalistas teria, exatamente, os mesmos efeitos práticos. Mas não, não teve. Antes pelo contrário, só piorou a reputação pública da dita Gala. Resta saber se ainda veremos a curiosa frase de boas-vindas da soirée impressa e à venda em cachecóis verdes oficiais. Ou em cachecóis vermelhos do outro lado da rua porque seria, aí sim, mais um estrondoso êxito comercial. 



Vídeo-árbitro é a melhor invenção desde a invenção das balizas 
A seleção saiu da Rússia com o 3º lugar do pódio da Taça das Confederações – bem bom para quem não vive habitualmente nestes patamares competitivos - e com a alegria de poder voltar a casa clamando bem alto: o vídeo-árbitro foi a melhor coisa que se inventou para o futebol desde a invenção das balizas! E porquê? Porque só nesta competição-relâmpago os portugueses viram os meios tecnológicos que vão impor à força a verdade desportiva perdoar-lhes duas grandes penalidades tão descaradas que até meteram dó. 

Aconteceu nos jogos com o Chile e com o México terem José Fonte e Pepe cometido infrações na nossa área que passaram incólumes pelo crivo do vídeo-árbitro internacional. Também no jogo da final escaparam os chilenos a uma grande penalidade tão óbvia que foi assunto de conversa à escala planetária. O que o vídeo-árbitro acrescenta ao futebol são mais uns quantos nomes de árbitros-sentados que serão tão ou mais insultados do que os árbitros-em-pé. Uma animação.




Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

Ressurreição de vivos

Portugal teve esta semana duas excelentes notícias: um avião não caiu e uma pessoa não se suicidou. Talvez não sejam excelentes notícias. É possível que sejam excelentes não-notícias. Ou, mais precisamente, excelentes desmentidos de más não-notícias. Sejam o que forem, aceito. Foi agradável saber que um avião não tinha caído e que uma pessoa não se tinha suicidado, até porque o avião esteve despenhado durante cerca de duas horas e a pessoa ainda chegou a permanecer enforcada durante uns bons 45 minutos. É como a ressurreição de Lázaro mas sem Lázaro ter morrido. Assim poupa-se trabalho, quer a Lázaro, que não tem de falecer, quer a Jesus, que não desperdiça impositio manuum onde não há necessidade. Apesar de descoberto por acaso, parece-me que o desmentido de não-notícias poderia transformar-se numa instituição. Gostaria de ligar a televisão e passar a ouvir: “Esta manhã, pelas 11h32, um terramoto não arrasou o País. O sismo, que não registou 8,2 na escala de Richter, não teve epicentro em Viseu.” Ou: “Ontem, um monstro marinho não comeu 17 banhistas na praia do Castelo.” As notícias informam, mas muitas vezes preocupam. Os desmentidos de não-notícias envolvem criatividade e proporcionam alívio. Têm, sobre as notícias, uma superioridade evidente.

O primeiro não-caso a não-abalar o País foi a não-queda do não-avião. De acordo com a comunicação social, um avião de combate aos incêndios ter-se-ia despenhado. Uma jornalista fez uma longa declaração, dizendo que havia sido inadmissivelmente induzida em erro, tanto que tinha confirmado a informação junto de, e cito, “duas pessoas diferentes”. Esta expressão interessa-me, se me permitem uma nota marginal. A ideia de que uma notícia tenha de ser confirmada por duas pessoas diferentes constitui uma falha na deontologia jornalística porque parece inviabilizar que determinado facto possa ser confirmado por gémeos. Uma notícia confirmada por duas pessoas iguais devia ter a mesma credibilidade que outra confirmada por duas pessoas diferentes. Ou talvez até menos, dado que é muito mais fácil encontrar duas pessoas diferentes do que duas pessoas iguais.

O segundo não-caso foi o do não-suicídio, do qual Passos Coelho alegou ter tido conhecimento através de uma pessoa de família. O provedor da Santa Casa de Pedrógão Grande veio mais tarde confirmar e desmentir o presidente do PSD: confirmar porque tinha sido ele a dar-lhe a não-
-notícia, desmentir porque ele não é da família de Passos Coelho (a não ser que a família política conte). 
É, por isso, uma ocorrência ainda mais intrincada, na medida em que a não-notícia foi veiculada por uma não-fonte. Confesso que não sei o que não-pensar de tudo isto.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

segunda-feira, julho 03, 2017

O bruxo é para manter

Tardava uma explicação cabal, científica e, por isso mesmo, limpa de facciosismo, que esclarecesse o público pagante dos nossos estádios sobre as grandes anormalidades que se têm vindo a passar no domínio das competições oficiais quer sejam patrocinadas pela moderna Liga de Clubes quer pela velha Federação. 

Chegou, finalmente, e ainda muito a tempo de iluminar com as luzes da razão pura as mentes capciosas e bolorentas que nos remetem para tempos medievos em discussões e teorias que só medram na ignorância dos factos, das causas e dos efeitos. 

Estarão certamente recordados, por exemplo, daquela grande anormalidade ocorrida no estádio do Sporting ao minuto 72 do dérbi do campeonato de 2015/2016 quando o simpático costa-riquenho Bryan Ruiz falhou um golo de baliza aberta depois de ter recebido a bola, perfeita, dos pés de um Slimani que o serviu com uma magnificência raramente vista. 

- Isto é bruxedo! – gritou-se nas bancadas do estádio e gritou-se também, pudera, em muitos lares e em muitas redações de jornais. 

- Não é nada bruxedo, é aselhice! – contrapuseram os céticos. 

Mas estavam errados os céticos. Aconteceu mesmo bruxedo. Soube-se agora, 16 meses passados. Foi por artes mágicas que todos vimos Bryan Ruiz falhar o pontapé que colocaria o Sporting na rota do título. 

E o que dizer do pontapé de livre do Lindelof que já nesta primavera colou Patrício ao chão? Está também agora explicadíssimo aquele momento de loucura do mexicano Herrera que, nos segundos finais do FC Porto-Benfica, na primeira volta da última Liga, ofereceu disparatadamente um pontapé de canto aos adversários, que aproveitaram para, sem piedade, empatar o jogo através de uma cabeçada acertadíssima do Lisandro López. 

- Isto é burrice! – muito se gritou nas bancadas do Dragão. 

Injustamente, está agora esclarecido, porque Herrera não teve culpa alguma. Foi também bruxedo. Todas estas informações foram transmitidas ao país e à polícia de costumes na noite da última terça-feira no Porto Canal. E em boa hora o foram para que se faça justiça a gente boa e trabalhadora como Lopetegui e Nuno Espírito Santo, vítimas também eles do bruxo contratado na Guiné pelo presidente do Benfica. 

Estas revelações do Porto Canal vão, por certo, fazer rolar muitas cabeças. Onde vão rolar as cabeças é que não se sabe. No entanto, aqui fica um pedido singelo ao presidente do Benfica: o bruxo, por amor de Deus, é para manter. O bruxo e o Fejsa, claro. 



Outras histórias... 
A seleção soube fazer justiça  
Síndrome da equipa favorita na hora das grandes penalidades 
Com a eliminação nas meias-finais da Taça das Confederações voltou a nossa seleção a usufruir do estatuto de patinho-pobre da pátria e o nosso selecionador passou de bestial a besta. 

Até Cristiano Ronaldo voltou a cair em desgraça acusado de ligar mais ao rancho de filhos do que ao rancho das quinas. Sobre os pontapés de penalidade falhados na hora do desempate também já se disseram muitos disparates. 

Que, por exemplo, os jogadores estavam com vontade de férias, o que não faz sentido porque, perdendo, teriam sempre de jogar mais uma vez na Rússia para a atribuição do 3º lugar. O que atacou Ricardo Quaresma, João Moutinho e Nani não foi a urgência do descanso. 

Foi a consciência de que seria muito injusta a eliminação do Chile depois de lhe ter sido sonegado um penálti e de ter visto a bola ir duas vezes ao poste da baliza de Patrício nos instantes cruciais do prolongamento. 

Portugal, que era o favorito, fez justiça contra si mesmo pelos seus próprios pés. Foi nobre ou não foi?



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

sexta-feira, junho 30, 2017

Um disco riscado chamado Portugal

Interrompemos esta emissão para fazer uma ligação em directo ao local onde lavra o violento incêndio. O nosso enviado especial vai agora perguntar a uma vítima como é que ela se sente.

– Bom dia. Como é que se sente?

Obrigado. Em estúdio temos um especialista. Não é surpreendente que esta vítima se sinta demasiado aturdida para explicar como é que se sente?

– É. Eu esperava lucidez e frases completas.

Agora pedia-lhe que falasse sobre isto durante cinco horas.

– Com certeza. Estamos perante uma tragédia enorme que comporta elevados custos materiais e humanos. A área ardida leva décadas a recuperar. Situações como esta não podem voltar a acontecer. Não me lembro de uma coisa assim desde o ano passado. A nuvem de fumo vê-se do espaço. 
A floresta é um activo extremamente importante. 
Há que dotar os bombeiros de meios. Há que investir na prevenção. Há que corrigir os problemas do ordenamento do território. Não é hora de apontar dedos, mas a culpa não pode morrer solteira. Adeus e até para o ano.

Interrompemos esta emissão para fazer uma ligação em directo ao local onde lavra o violento incêndio. Ao que a nossa reportagem conseguiu apurar, há várias vítimas e nenhuma consegue verbalizar com exactidão o que sente. Comigo em estúdio está um especialista. Estamos perante o quê?

– Uma tragédia enorme.

O que é que ela comporta?

– Elevados custos materiais e humanos.

A floresta é um activo quê?

– Extremamente importante.

Vamos agora à sua popular rubrica dos há ques, se não se importa.

– Há que dotar os bombeiros de meios. Há que investir na prevenção. Há que corrigir os problemas do ordenamento do território.

Bravo. Qual é a dimensão desta tragédia?

– O grupo de jornalistas no terreno vê-se do espaço.

Obrigado e até para o ano.

Interrompemos esta emissão para blá blá blá. O nosso enviado especial vai agora perguntar blá blá blá.

– Bom dia. Blá blá blá?

Obrigado. Comigo em estúdio, um especialista.

– Estamos perante uma blá blá blá que comporta elevados blá blá blá. A área blá leva blá a blá blá. Situações como esta não podem blá blá blá. A floresta é um blá blá blá extremamente blá blá blá. Há que bombeiros. Há que prevenção. Há que ordenamento do território. Não é hora de blá, mas a culpa não pode blá. Adeus e até para o ano.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

segunda-feira, junho 26, 2017

Afinal qual é o problema?

O futebol vive de ciclos. E, como é próprio dos ciclos, todos têm um início e um fim. Começam e acabam essas revoluções em alegria ou em incomensurável tristeza, dependendo das cores das paixões em causa, mas é o "meio" dos ciclos que mais custa a passar para quem os vive em perda. 

Nestes transes, as tentativas de cortar o mal pela raiz obedecem a um reportório curtíssimo que leva o público mais qualificado a encarar com desconfiança e mal disfarçado tédio as sucessivas repetições das panaceias e dos tratamentos salvíficos. 

Tomemos por exemplo o Benfica. No início deste século entenderam os seus dirigentes que a solução para combater a dominância do FC Porto era contratar antigos jogadores dos azuis-e-brancos, atletas consagrados nas Antas e, posteriormente, no Dragão de modo a que esses nomes – e só os nomes – bastassem para repor o lindo emblema da águia na senda de um qualquer ciclo triunfal. 

E, assim, foram chegando sujeitos de talento apreciável como Zahovic e Drulovic e tantos outros, menos artísticos, como Argel ou João Manuel Pinto. 

O resultado prático foi igual a zero mas a "galera", como dizem os brasileiros, vibrou com a chegada desses jogadores aureolados no campo do inimigo acreditando, piamente, que esses títulos alheios se acabariam por transferir com esses mesmos jogadores para o Estádio da Luz. O que não viria a suceder, obviamente. 

O facto de o FC Porto ter dado uma fortuna a Maxi Pereira, que tanto tinha contribuído para o ainda incipiente renascer do Benfica, foi indício sólido de que a tal discussão sobre a hegemonia estava a mudar de campo. Maxi leva já duas temporadas inteiras no Dragão e ainda não acrescentou meio título sequer ao seu palmarés e ao palmarés do clube que o contratou. 

Já o Sporting vem percorrendo o mesmo trilho e, deste modo, foram chegando a Alvalade ex-campeões do Benfica como Bruno César e Markovic, velhos conhecidos do treinador Jorge Jesus. E, agora, será Fábio Coentrão se os exames médicos e o acordo sobre vencimentos se concluírem com o sucesso esperado. 

A turba dos dois lados da Segunda Circular indigna-se por estes dias com o negócio Coentrão. Uns indignam-se porque o homem das Caxinas disse um dia que em Portugal só jogava no Benfica e os outros porque o mesmo homem disse um dia que era sportinguista desde pequenino. 

Na realidade, ninguém tem razão porque exigir constância amorosa a um profissional de futebol é mania não do século XX mas do século XIX. São coisinhas destas que ajudam a fazer do futebol um espetáculo de multidões. E qual é o problema? 



Outras histórias... 
A maior família de Portugal  Silva, Silva, Silva & Cristiano Ronaldo e assim vamos lá  
Do jogo pobrezinho com o México (que deu empate) para o jogo eficiente com os russos (que deu vitória) na casa deles, Fernando Santos procedeu a umas quantas alterações na equipa nacional que resultaram muito bem em termos da qualidade de jogo dos campeões da Europa (sim, ainda parece impossível mas somos nós!). 

Foi a consagração do saber tático do selecionador português e foi também a consagração de todos os Silvas de Portugal, o apelido mais comum entre nós. Do encontro com o México para o desafio com a Rússia entraram três Silvas na equipa – Adrien Silva, Bernardo Silva e André Silva – e a aposta não podia ter corrido melhor. 

É claro que sem Cristiano Ronaldo, o autor do golo da vitória portuguesa em Moscovo, não há Silvas em Portugal que cheguem para fazer da nossa seleção uma mais do que séria candidata ao triunfo na Taça das Confederações. 

Mas para isso é preciso não descansar hoje frente à Nova Zelândia independentemente do número de Silvas em campo.




Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

sábado, junho 24, 2017

Incentivo ao incentivo à leitura

Os textos que escrevo aqui na VISÃO são frequentemente incluídos em livros da disciplina de português do ensino secundário. É uma maneira excelente de pôr os alunos em contacto com escrita requintada e raciocínios sofisticados (1). Talvez um dia este mesmo texto venha a figurar num desses livros. Seria curioso: pela primeira vez, um texto incluído numa selecta escolar reflectiria acerca da circunstância de ser um texto incluído numa selecta escolar.

É uma espécie de mise en abyme (2) capaz de aborrecer alunos durante uns bons dez minutos de aula, ou até de lhes azucrinar a paciência num teste.

De vez em quando recebo chamadas telefónicas de jovens, filhos de amigos meus, que se encontram nesse momento a proceder à “análise e interpretação” de qualquer coisa escrita por mim. Costumam estar bastante indignados. Dizem que, se eu quero ser correctamente interpretado, deveria deixar-me de brincadeiras e escrever logo o que pretendo dizer, em vez de me pôr com figuras de estilo. Que começar frases com a palavra “que” excita nos professores a vontade de pedir uma análise sintáctica, e depois quem se lixa são eles. E que estão estafados de estudar estas estúpidas aliterações, por exemplo (3).

Ora, a culpa não é minha. Como calculam, eu nunca imaginei ser um TPC. Lamento profundamente que a vida se tenha desenrolado desta forma. É deplorável que milhares de estudantes tenham de me conhecer assim, entre uma estrofe d’Os Lusíadas e um excerto do Auto da Barca do Inferno – e que os seus professores os obriguem a dar-me a mesma atenção que eles dedicaram a Camões e Gil Vicente. Foi isso que me levou a escrever esta crónica cheia de anotações explicativas, para facilitar o trabalho dos alunos (4). Há um aspecto da minha obra que tanto alunos como professores devem manter presente: na maior parte das vezes eu escrevo estes textos em pijama. Todas as respostas de um teste ou trabalho de casa sobre mim devem incluir essa referência: “Nesta frase – que, muito provavelmente, o autor escreveu em pijama –, encontramos uma epanadiplose. (5)”  E sempre que um professor perguntar, a propósito de um texto meu, o que pretende realmente o autor, o aluno fica desde já credenciado para responder: “O autor pretende que este aluno tenha 5 a português. É a sua única ambição na vida.”(6) A sério.(7)


(1) Atenção: isto é bem capaz de ser ironia.
(2) Eis uma interessante expressão em estrangeiro cujo significado está disponível na Wikipedia. 
(3) Prometo parar prontamente com este tipo de proposição. 
(4) Cá está mais uma anotação bastante explicativa.
(5) É difícil encontrar uma epanadiplose numa frase minha, porque eu não sei bem o que uma epanadiplose é. 
(6) Não há aqui qualquer ironia.
(7) A sério.


Fonte : Ricardo Araujo Pereira @ Visão

sábado, junho 17, 2017

Fejsa já é padre há 9 anos

Fejsa, o sérvio do Benfica, foi esta semana notícia em várias publicações estrangeiras – nomeadamente em Espanha e em Inglaterra – pelo facto, aliás bastante absurdo, de colecionar ininterruptamente títulos desde o ano de 2008. 

O diário madrileno ‘As’, por exemplo, aconselha os possíveis interessados nos serviços do médio defensivo da Luz a não perder tempo porque "contratar Fejsa é garantia de ganhar o campeonato, seja que campeonato for". Depois elencam os espantadíssimos espanhóis o rol dos 9 títulos ganhos de enfiada pelo sérvio: 3 com a camisola do Partizan de Belgrado (2008-2011), 2 com a camisola do Olympiacos (2011-2013) e os 4 com aquela camisola vermelha de que a Madonna tanto gosta (2013-2017). 

Os elogios a Fejsa vindos da imprensa internacional compreendem-se. Um palmarés individual deste calibre deve ser caso único no mundo. E se em Portugal, com toda a franqueza, ninguém se lembra das exibições do sérvio no Partizan e no Olympiacos, já o seu contributo para o tetra do Benfica está fresco e amplamente documentado. 

Qual será, na realidade, o mistério de Ljubomir Fejsa? Que receita terá o sérvio que lhe vem garantindo um percurso profissional a terminar em festa ano após ano? E terá consciência Luís Filipe Vieira, o presidente do Benfica, que se vender Fejsa neste defeso e perder o título na próxima época não haverá quem não conclua que foi a falta do sérvio que impediu a equipa de Rui Vitória de chegar ao ‘penta’? 

Todas estas questões de capital importância para os benfiquistas são, naturalmente, falsas questões para os seus rivais diretos em Portugal. Para eles, no cúmulo de uma frustração com 4 anos, Fejsa, tal como os outros todos, não joga a ponta de um chavelho. 

E, desprezando até as trafulhices mais do que certas que levaram o Partizan e o Olympiacos a serem campeões com Fejsa – cartilhas em cirílico? missas ortodoxas? – já as razões que explicam este novo período de hegemonia do Benfica em Portugal estão à vista de todos e pelas piores razões: a aliança anti-Benfica fez eleger um presidente da Liga que sendo do Benfica-anti-Benfica se tem vindo a revelar de uma inépcia total desde o tristíssimo momento em que deixou de usar o apito e passou a usar gravata. 

Sérgio Conceição, muito atento, já se encarregou de traçar o destino de Fejsa e do Benfica – ou do Benfica sem Fejsa? – para 2017/18. "Não vão ser pentacampeões!", garantiu o técnico. Como é possível dizer-se uma coisa destas sem se saber ainda se o verdadeiro ‘padre’ da Luz, o mais fiável dos ‘padres’ da Luz, fica ou vai embora? Corrupção, isto cheira a corrupção… 



Outras histórias 
Um caso urgente de saúde pública 
Já estão a salvo os transeuntes nas nossas ‘zonas técnicas’ 
A velha guerra que opõe há mais de um século Benfica e Sporting atingiu esta semana um patamar que se poderá definir de ‘saúde pública’ e também da sua imperiosa legislação. 

O Benfica fez aprovar na última assembleia-geral da Liga um artigo regulamentar que considera "revelador de indignidade agravada" o ato de "fumar cigarros e cigarros eletrónicos" na chamada zona técnica dos estádios, bem como o ato de "expelir fumo ou quaisquer outras substâncias, tais como saliva" na direção de transeuntes nas referidas zonas técnicas. 

A proposta foi aprovada com 7 votos a favor, 4 votos contra e 36 abstenções, sendo que o Arouca (pois claro!) votou com o Benfica enquanto Sporting e Porto (vá-se lá saber porquê…) votaram contra este afã civilizacional vindo da Luz. 

Os 36 clubes que se abstiveram permitiram a aprovação da proposta que, pelo lado do Sporting, foi considerada uma afronta direta ao presidente Bruno de Carvalho. E assim, higiénico e triunfal, segue o defeso em Portugal.



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

Emel versus Asae: O recontro final

Toda a gente conhece o exercício infantil de imaginar uma luta entre dois colossos. Quem ganharia: o Super-Homem ou o Batman? Um tubarão ou um tigre? A EMEL ou a ASAE? Enquanto as duas primeiras contendas continuam a desenrolar-se apenas na nossa imaginação, a última ocorreu mesmo na vida real. Na semana passada, a ASAE multou a EMEL. Certos parquímetros não possuíam uma determinada certificação. O caso não excitou a curiosidade do povo tanto quanto eu esperava, provavelmente porque, tratando-se de dois dos organismos mais execrados do país, a alegria proporcionada pela derrota de um foi contrabalançada pela irritação causada pela vitória do outro. Vale a pena, até porque não temos mais nada para fazer, examinar com cuidado este bizarro incidente.

Tanto a ASAE como a EMEL têm um propósito, digamos, moralizador. A acção de ambas destina-se a melhorar os costumes. É importante que a comida, por exemplo, seja confeccionada em condições de higiene e segurança, e a ASAE esforça-se por garantir que isso aconteça. Os lugares de estacionamento são um bem escasso (em Lisboa, por exemplo, há três vezes mais carros do que lugares), e a fiscalização da EMEL possibilita a necessária rotatividade. Ora, pessoalmente, sou favorável a que a sociedade se organize civilizadamente – desde que eu possa continuar a viver como um selvagem. Em teoria, concordo com a segurança alimentar, mas na prática desejo, volta e meia, comer uma gordurosa bifana frita em óleo de há dois anos. Valorizo o trabalho da EMEL que me permite encontrar um lugar vago, mas abomino os fiscais que não me deixam usufruir do lugar para além do limite logo no dia em que não tenho moedas, que chatice. Oscilo entre o estado atilado “Eduquem estes bárbaros porque eles só percebem assim” e a disposição rebelde “Mas que intolerância é esta? Vão multar a vossa mãe.”

Sucede que, neste caso, multou-se quem multa. Multar o multador é uma operação com implicações filosóficas importantes. Significa que havia uma hierarquia de moralidade e que um dos moralistas considerou que o outro moralista carecia de moralização. Além disso, a EMEL foi multada porque não garantiu as melhores condições para multar. Estava a multar mal, ou seja, a fazer cumprir a lei fora da lei. Para aprender a multar-nos melhor, foi multada. Bem feita. Acho eu. São demasiadas ambivalências num processo só.



Fonte: Ricardo Araujo Pereira @ Visão

sábado, junho 10, 2017

Dia de Portugal - 10 de Junho


Portugal, oficialmente República Portuguesa, é um país soberano unitário localizado no sudoeste da Europa, cujo território se situa na zona ocidental da Península Ibérica e em arquipélagos no Atlântico Norte. O território português tem uma área total de 92 090 km², sendo delimitado a norte e leste por Espanha e a sul e oeste pelo oceano Atlântico, compreendendo uma parte continental e duas regiões autónomas: os arquipélagos dos Açores e da Madeira. Portugal é a nação mais a ocidente do continente europeu. O nome do país provém da sua segunda maior cidade, Porto, cujo nome latino-celta era Portus Cale.

O território dentro das fronteiras atuais da República Portuguesa tem sido continuamente povoado desde os tempos pré-históricos: ocupado por celtas, como os galaicos e os lusitanos, foi integrado na República Romana e mais tarde colonizado por povos germânicos, como os suevos e os visigodos. No século VIII, as terras foram conquistadas pelos mouros. Durante a Reconquista cristã foi formado o Condado Portucalense, primeiro como parte do Reino da Galiza e depois integrado no Reino de Leão. Com o estabelecimento do Reino de Portugal em 1139, cuja independência foi reconhecida em 1143. Em 1297 foram definidas as fronteiras no tratado de Alcanizes, tornando Portugal no mais antigo Estado-nação da Europa. Nos séculos XV e XVI, como resultado de pioneirismo na Era dos Descobrimentos (ver: descobrimentos portugueses), Portugal expandiu a influência ocidental e estabeleceu um império que incluía possessões na África, Ásia, Oceânia e América do Sul, tornando-se a potência económica, política e militar mais importante de todo o mundo. O Império Português foi o primeiro império global da História e também o mais duradouro dos impérios coloniais europeus, abrangendo quase 600 anos de existência, desde a conquista de Ceuta em 1415, até à transferência de soberania de Macau para a China em 1999. No entanto, a importância internacional do país foi bastante reduzida durante o século XIX, especialmente após a independência do Brasil, a sua maior colónia.

Com a Revolução de 1910, a monarquia terminou, tendo desde 1139 até 1910, 34 monarcas. A Primeira República Portuguesa foi muito instável, devido ao elevado parlamentarismo. O regime deu lugar à ditadura militar devido a um levantamento em 28 de maio de 1926. Em 1933, um novo regime autoritário, o Estado Novo, presidido por Salazar até 1968, geriu o país até 25 de abril de 1974. A democracia representativa foi instaurada após a Revolução dos Cravos, em 1974, que terminou a Guerra Colonial Portuguesa. As províncias ultramarinas de Portugal tornaram-se independentes, sendo as mais proeminentes Angola e Moçambique.

Portugal é um país desenvolvido, com um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) considerado como muito elevado. O país foi classificado na 19.ª posição em qualidade de vida (em 2005), tem um dos melhores sistemas de saúde do planeta e é, também, uma das nações mais globalizadas e pacíficas do mundo. É membro da Organização das Nações Unidas (ONU), da União Europeia (incluindo a Zona Euro e o Espaço Schengen), da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Portugal também participa em diversas missões de manutenção de paz das Nações Unidas.



Fonte: wikipedia

O amor é cego mas passa

Fábio Coentrão, que há 8 anos Jorge Jesus conseguiu transformar num muito eficiente lateral-esquerdo, só não será jogador do Sporting na próxima temporada se, eventualmente, não passar com distinção nos testes médicos. 

Isto porque não há nada pior do que investir num prometedor ativo que, afinal, se revela um contumaz inativo. A notícia do interesse do Sporting em Coentrão e, reciprocamente, do interesse de Coentrão no Sporting provocou grande alvoroço entre as alas mais disparatadas de adeptos do Benfica e do Sporting, que se recusam a admitir a legítima sazonalidade dos amores declarados pelos jogadores aos clubes que vão representando ao longo das carreiras. 

Consideram os benfiquistas Fábio Coentrão um troca-tintas porque, há exatamente 2 anos, o jogador jurou que, em Portugal, só jogaria no Benfica e foi assim, um bocado à bruta, que colocou ponto final nos rumores que circulavam à época e que o davam como certo no Sporting no primeiro ano de Jorge Jesus em Alvalade. 

Consideram os sportinguistas Fábio Coentrão um infiel convertido à pressa, que vai agora ingressar no seu templo depois de ter dito o que disse. Aliás, foi exatamente o que, sem grande originalidade, disse Markovic quando saiu do Benfica. Mas cumpriu. 

O impulsivo sérvio que foi contratado pelo Sporting no último defeso jogou tão pouco e tão mal que se regozijaram durante meia época os benfiquistas constatando, semana a semana, que Markovic em Portugal só ‘jogou’ efetivamente no Benfica, porque o Markovic de leão ao peito foi um fiasco total. 

Nada garante que Fábio Coentrão seja um êxito ou um fiasco no seu regresso anunciado ao futebol português até porque, tratando-se de futebol, nada melhor do que esperar para ver e tirar conclusões. Certo é que tudo o que corra bem a Coentrão em Alvalade vai causar dor na Luz e tudo o que lhe corra mal em Alvalade vai ser uma festa no outro lado. 

É sempre assim que se passam as coisas quando um jogador que brilhou ao serviço de um emblema se passa para o emblema do rival. 

Basta recordar os cânticos dos jogadores do Benfica no mês passado – "… e o Carrillo é campeão, e o Carrillo é campeão!..." – para se ter a noção exata de como estas ‘crueldades’, quando ocorrem, moem as suas vítimas. 

Quanto aos adeptos mais a sua proverbial cegueira clubista, é tempo de darem o devido valor – isto é, nenhum valor – às declarações de amor com que são contemplados episodicamente pelos seus ídolos, que logo viram vilões ao virar da esquina, porque o amor tão depressa é cego como deixa de o ser. 



OUTRAS HISTÓRIAS 
O melhor da semana no Dragão    
Um FC Porto que serve para a "tranquilidade" dos jogadores 
A contratação de Sérgio Conceição foi a melhor notícia da semana para o FC Porto. 

A segunda melhor notícia da semana para o FC Porto foi a de que Soares, o avançado contratado no último mercado de inverno, esteve ‘quase’ a ser convocado por Tite, o treinador do ‘escrete’, para os jogos que o Brasil vai disputar com a Argentina e a Austrália. 

Soares ‘quase’, imagine-se, ‘quase’, foi chamado à seleção brasileira. Não é para qualquer um. 

A terceira melhor notícia da semana para o FC Porto foi a entrevista que Casillas concedeu ao jornal francês ‘L’Équipe’ afirmando o guarda-redes espanhol que, no Dragão, recuperou "a tranquilidade" embora se compreenda que, entre os indefetíveis adeptos portistas, haja quem se interrogue se o F C Porto agora serve para a ‘recuperação da tranquilidade’ de jogadores em vez de servir para fazer dos jogadores campeões. 

Talvez por esta razão tenham sido pintados os muros de mais uma residência de um administrador da SAD. A culpa, claro, é do Benfica...



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

Actualização (à atenção de Carlos do Carmo)

No Castelo ponho um cotovelo mesmo em cima da casa da Monica Belluci, em Alfama descanso o olhar no apartamento do Michael Fassbender, e assim desfaço o novelo de azul e mar que os chineses querem fotografar. À Ribeira encosto a cabeça, almofada da cama do Tejo repleto de navios de cruzeiro, com lençóis bordados à pressa para satisfazer as necessidades do alojamento local, na cambraia de um beijo que a gente dá nos relatórios que indicam claramente um aumento significativo do número de turistas. Lisboa menina e moça, menina, da luz que os meus olhos vêem, tão pura, embora ligeiramente obscurecida pelo fumo dos tuk-tuks, teus seios são as colinas, varina cujo nível de vida piorou um pouco por causa das quotas impostas pela União Europeia às pescas, pregão que anuncia a realização do prestigiado web summit e me traz à porta ternura e algum lixo, porque os hóspedes do Airbnb não reciclam.

Cidade a ponto-luz bordada, toalha à beira-mar estendida sobre a qual turistas ébrios curam ressacas. Lisboa menina e moça, amada, cidade mulher da minha vida com rendas pela hora da morte.

No Terreiro eu passo por ti e posso adquirir várias bugigangas em cortiça, galos de Barcelos e camisolas do Ronaldo, nas lojas de recuerdos. Mas na Graça eu vejo-te nua, ao passo que já não vejo ninguém nu no Conde Redondo, dado que o Elefante Branco fechou.

Quando um pombo te olha, sorri, pois acabou de debicar uma fartura que um turista deitou fora. És mulher da rua porque até às três não vale a pena ires para casa, uma vez que, enquanto os bares estiverem abertos, não dormes de certeza. E no bairro mais alto do sonho, aquele em que mora o Éric Cantona, ponho um fado que soube inventar e que os estrangeiros apreciam, acompanhado de caldo verde, chouriço assado, broa e azeitonas, em casas extremamente typical.

Aguardente de vida e medronho, que me faz cantar, e faz os turistas mais fraquinhos vomitar.

Lisboa no meu amor deitada, pagando 350 euros por dormida, cidade por minhas mãos despida para pôr o vestido à venda numa loja de roupa vintage do Bairro Alto. Lisboa menina e moça, amada, cidade mulher da minha vida com rendas pela hora da morte.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ visão

domingo, junho 04, 2017

O filho do filho do dragão

Sérgio Conceição poderá vir a ser (ou a não ser) o próximo treinador do FC Porto e não foi esta a primeira vez que os azuis-e-brancos se interessaram pelos serviços de Conceição. 

Há bem pouco tempo, quando urgia despachar Julen Lopetegui, foi notícia a cobiça do FC Porto pelos serviços do jovem treinador e seu ex-jogador e logo na semana em que o V. Guimarães de Sérgio Conceição recebia, justamente, o FC Porto de Lopetegui. 

Diga-se, resumidamente, que o resultado do jogo não foi favorável à transferência do treinador português nascido em Coimbra e acabou por ser José Peseiro o eleito pela SAD portista para assumir o comando da equipa. A coisa com Peseiro foi rápida e não correu bem. 

Tal como não correra bem com o basco nem, anteriormente, com Paulo Fonseca. Com Nuno Espírito Santo a coisa foi menos rápida – demorou uma temporada completa – e também esteve longe, muito longe de ser um sucesso apesar de tudo o que prometia em função da propalada "mística" carregada pelo antigo guarda-redes da casa. 

Convém precisar que "mística" é… ganhar. Vendo o Benfica ganhar três campeonatos de assentada, Espírito Santo foi, assim, contratado pelo FC Porto porque um dia, quando era guarda-redes da casa e num raro período menos feliz dos dragões, teve a inspiração de soltar um grito – "Somos Porto!" – que se transformou num slogan feliz que caiu no goto da vasta nação portista. 

Mas o "somos Porto" de Espírito Santo esboroou-se com o quarto título do Benfica e transformou-se num "fomos Porto". Na semana passada, foi explicado ao país do dragão que, afinal, Nuno sempre foi um benfiquista dos sete costados. Entretanto andou o FC Porto à cata de Marco Silva, que o preteriu em favor do Watford, o que se explica porque Marco Silva é outro benfiquista do piorio. Isto para não falar do benfiquismo de Paulo Fonseca, enfim, outro que tal… 

Sobre Sérgio Conceição é que, para já, não há dúvidas. É um filho do dragão certificado e como tal será recebido no Porto se o Nantes deixar. O problema maior é o filho do filho do dragão. Um dos filhos de Conceição, Rodrigo Conceição, 17 anos, é futebolista juvenil dos quadros do Benfica e ainda recentemente prolongou o seu vínculo com os mouros. 

Saberão, certamente, os adeptos e os profissionais da comunicação separar as águas perante esta minúscula traição. É que estes pormenores, na realidade, não valem nada. Veja-se o caso do filho do dirigente dos árbitros que foi contratado pelo Sporting no arranque da época passada e que pouco valeu ao autor da ideia. O futebol tem destas coisas. 



OUTRAS HISTÓRIAS 
Primeiro título na era do vídeo-árbitro  
O futuro parece ser um lugar cheio de possibilidades 
O Benfica conquistou o seu primeiro título e o primeiro título da história do futebol português na era do vídeo-árbitro. Foi a 26ª Taça de Portugal. 

Vencer a Taça é sempre uma festa para qualquer emblema mas para o Benfica foi ainda mais festa porque se tratou não só da sua 11ª dobradinha mas também de responder aos rivais – para quem o vídeo-árbitro era garantia da queda do império romano – levando para o Museu Cosme Damião o primeiro caneco disputado em condições tecnológicas que garantem o triunfo a 100% da verdade desportiva. 

A estreia do vídeo-árbitro foi um êxito. Nos poucos lances em que foi chamado a intervir, o vídeo-árbitro decidiu sempre em desfavor do Benfica, o que não impediu que a superioridade da equipa de Rui Vitória se afirmasse em campo e no resultado final. 

Até a chegada da bola do jogo impressionou o público. Um "trooper" galáctico voando num drone entregou a redondinha ao árbitro-humano. O futuro parece ser um lugar cheio de possibilidades.


Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

sexta-feira, junho 02, 2017

Rocky e Ivan Drago vão ao cinema

Críticos de cinema de todo o mundo devem estar, neste momento, a rasurar críticas antigas. O mundo mudou e essa mudança produziu, primeiro que tudo, uma transformação sem precedentes no cinema. Numerosas películas mudaram de género sem que fosse necessário alterar um fotograma. Os filmes de espionagem americanos de antigamente são agora obras de ficção científica. Na história clássica dos filmes de espionagem, um agente do FBI ia investigar os russos. Na vida real, o Presidente dos Estados Unidos da América despede um agente do FBI por andar a investigar os russos. As novas relações entre os americanos e a Rússia exercem um estranho efeito retroactivo sobre a mitologia do passado. É como se Montéquios e Capuletos, de repente, fossem os melhores amigos: a história de Romeu e Julieta fica meio parva. Parece o inverso de um casamento seguido de divórcio. EUA e Rússia são um casal divorciado que se casa. Talvez haja necessidade de recorrer ao método estalinista de alterar fotografias, mas ao contrário: em vez de retirar elementos caídos em desgraça das fotos antigas, incluir elementos caídos em graça nas fotos antigas.

A frase “Cuidado, vêm aí os russos!” está agora mais completa: “Cuidado, vêm aí os russos. Teremos champanhe que chegue?” Exprime outro tipo de preocupação. A diferença é bastante significativa, pelo que talvez valesse a pena submeter os filmes clássicos ao processo a que a indústria de Hollywood chama um remake. Um remake costuma ser o equivalente cinematográfico dos restos do jantar de ontem: vão ao microondas e comemos outra vez a mesma coisa ao almoço. No caso dos filmes é ligeiramente diferente, uma vez que o jantar não é de ontem, é de há algumas décadas. Os remakes que tenho em mente seriam ainda mais singulares, porque teriam de conformar o enredo antigo à realidade moderna. Comecei a trabalhar no remake do filme Rocky IV. Nesta versão, Rocky e Ivan Drago não lutam, uma vez que são amigos. Drago matou Apolo Creed, mas apenas porque suspeitou que ele pudesse ser muçulmano. Rocky perdoou imediatamente o russo e ainda deram umas boas gargalhadas sobre isso. Para manter a tensão do filme original quanto à rivalidade entre o russo e o americano, Drago e Rocky fazem uma competição para ver quem come mais bombons de ginja durante um piquenique. Fico à espera da chamada dos estúdios da MGM. Tenho isto quase pronto.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

sábado, maio 27, 2017

Futebol à vista desarmada

José Mourinho continua a fazer a sua própria História e ainda a História dos clubes por onde passa. Na quarta- -feira conquistou a Liga Europa para o Manchester United. 

Finalmente, parece dissipar-se sobre Old Trafford a velha sombra de Sir Alex Ferguson que não deixava nada nem ninguém ganhar o que quer que fosse em preito da lenda do insubstituível treinador e manager escocês. 

Agora ex-insubstituível porque Mourinho chegou e no seu primeiro ano conquistou a Supertaça de Inglaterra, a Taça da Liga e a Liga Europa, o único troféu continental que faltava no palmarés do Manchester United. 

Diga-se também, depois da saudação patriótica a José Mourinho, que a final da Liga Europa não passou de um joguinho sem grandes motivos de empolgamento. 

Os ingleses foram muito melhores do que o grupo quase infantil do Ajax. O árbitro era um simpático esloveno que acertou em quase todas as decisões por si tomadas, pelo que, no fim do jogo, não houve lugar a lamentos do público nem a impiedades da crítica. 

Foi um árbitro à antiga o que esteve na arena de Estocolmo para dirigir a discussão do segundo troféu em importância no quadro competitivo europeu. 

Um árbitro-humano sem recurso ao vídeo-árbitro que não deixa de ser humano mas que se socorre da tecnologia para eliminar erros grosseiros de avaliação em prol da verdade desportiva. 

A questão é que mesmo havendo – e não houve – uma mão-cheia de erros do tal árbitro esloveno, a verdade desportiva desta final da Liga Europa rezaria sempre que sendo o Manchester United muitíssimo superior ao Ajax a vitória lhe assentava lindamente. 

Voltando à santa terrinha, amanhã, no nosso Jamor, joga-se a final da Taça de Portugal, a reedição da final de 2013 entre Benfica e V. Guimarães. Lembram-se? Cardozo a "crescer" para Jorge Jesus no fim do jogo e Rui Vitória a crescer aos olhos de Luís Filipe Vieira como mais do que hipotético substituto de Jesus assim houvesse oportunidade para tal. E houve. 

No entanto, a maior novidade da final de amanhã não é a mudança de treinador de 2013 para 2017 mas a estreia oficial do vídeo-árbitro no futebol português. 

Benvindo seja o vídeo-árbitro mas, por favor, não esperem ver Hugo Miguel entrar em campo com uma câmara de vídeo aparafusada à cabeça e uns auscultadores de última geração pendurados nas orelhas. 

À vista desarmada não haverá modernices deste jaez. À vista desarmada só haverá futebol tal como inventado no século XIX. Que seja uma tarde magnífica para o público em geral e que vença o emblema que mais fizer por isso. E viva o árbitro e o vídeo do árbitro e o século XXI! 



OUTRAS HISTÓRIAS 
Os singulares casos do Bessa  
A bipolaridade do nosso futebol tem coisas destas 
Ficaram aborrecidos, à entrada do recinto, os benfiquistas que no sábado se deslocaram até ao Estádio do Bessa para assistir ao jogo de despedida da sua equipa no campeonato de 2016/2017. 

Por questões de sabe-se lá o quê, entenderam os responsáveis pela organização do acontecimento proibir a entrada com "adereços" benfiquistas ao numeroso público visitante. Ora isto não se faz. 

Não é bonito aproveitar a maré vermelha para vender bilhetes a preços da Liga dos Campeões e, depois, não permitir que o colorido intenso da festa chegue às bancadas. O que vale é que a má disposição dos benfiquistas do Norte não durou muito. 

A desagradável surpresa às portas do Bessa viria a ser abafada pela agradável surpresa que ocorreu no momento em que a equipa do Benfica entrou em campo. 

Recuperando uma velha tradição, os jogadores do Boavista postaram-se à saída do túnel e abriram alas para receber em sua casa os jogadores campeões. A bipolaridade do nosso futebol tem coisas destas.



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

O prolongamento do prós e contras no dia seguinte do frente a frente

– E, mais uma vez, Portugal cresce por causa do meu clube.

– O seu clube foi claramente beneficiado.

– Não foi, não. Foi um crescimento limpinho, limpinho.

– O seu clube foi escandalosamente beneficiado por uma conjuntura favorável que, aliás, se deve ao meu clube.

– Então não vinha aí o diabo? Eu sei bem o que se disse e o que se escreveu quando nós começámos a repor rendimentos. Que vinha aí o diabo. Afinal não veio. O sotôr desiludiu milhares de satânicos.

– Não veio o diabo porque vocês cortaram o investimento público. Olhe para as estatísticas em câmara lenta, que se vê melhor. Olhe ali o investimento público a ser claramente ceifado.

– É falso, o governo nem lhe toca.

– Toca, toca. Leia os técnicos do Conselho de Finanças Públicas. São unânimes.

– São unânimes porque estão todos ligados ao seu clube. Também diziam que o défice não ia cair.

– O défice caiu porque foi empurrado.

– Não foi, não.

– Foi, foi. Foi claramente empurrado pelos empréstimos do BCE.

– No máximo há um encosto, mas não é um empurrão. O que conta é a intensidade, e não houve intensidade suficiente da mão do BCE para fazer o défice cair.

– Houve, houve. É um empurrão claríssimo. Sem o colinho do BCE o défice não caía. É um escândalo, este colinho. O crescimento deve-se sobretudo às reformas operadas pelo meu clube.

– Quais? Diga uma.

– Várias.

– Diga uma!

– São inúmeras.

– Diga uma!

– Não interessa estar agora a dizer. As pessoas lá em casa sabem.

– Você está permanentemente a adulterar a verdade económica. Agora temos uma verdadeira descida do desemprego. Consigo, era causada pela emigração. Você não apostava nos jovens.

– Nós sempre apostámos nos jovens. Mas também precisamos de estrangeiros. O turismo é fundamental. Tem de haver um equilíbrio.

– O nosso clube conseguiu esse equilíbrio. O seu clube criou um ambiente de grande crispação, ao passo que nós sempre contribuímos para a pacificação. Repare que agora não há greves nem contestação.

– Mas isso é porque o seu clube tem duas claques ilegais que o apoiam. O meu clube estava a pôr Portugal no caminho certo.

– Então porque é que perderam as últimas eleições?

– Não perdemos, vocês ganharam essas eleições na secretaria.

– Cá está você a alimentar o clima de suspeição que afasta as pessoas das urnas.

– Não lhe agrada. Não quer ouvir.

– Não se irrite. Acalme-se.

– Não quer ouvir. Isto é lamentável.

– Está muito nervoso. Tenha calma.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ visão