sexta-feira, março 31, 2017

Então mas o que é isto ?

Receio que o fenómeno das modas linguísticas, de que sou dedicado estudioso, não desperte mais do que desinteresse e aborrecimento nos meus leitores. Como costuma suceder com todos os chatos, essa consciência não me impede de falar sobre o assunto sempre que posso. Certas modas linguísticas ficam circunscritas a determinados meios (por exemplo, a expressão “quando assim é” quase não é usada fora do âmbito das entrevistas rápidas que ocorrem após um jogo de futebol), outras estão limitadas a uma faixa etária (é raro ouvirmos um maior de quarenta anos dizer que determinada coisa é “top”), mas há algumas que ultrapassam as barreiras da idade e da origem social, e infectam uma sociedade inteira. Foi assim com o “portanto”, muito frequente sobretudo durante os anos 80 e 90 (embora ainda hoje protagonize pequenos surtos), e parece acontecer cada vez mais o mesmo com uma moda que já aqui examinei, a da utilização dos verbos no infinitivo (refiro-me à razoavelmente popular formulação “antes de mais nada, cumprimentar todos os presentes”, ou “em primeiro lugar, dizer que é um prazer estar aqui”).

A moda que trago hoje à consideração de todos permanece confinada a uma classe profissional, mas talvez tenha potencial para contagiar uma fatia mais larga da população. Falo da multiplicação de entões (confesso que não sei se o plural de então é entões ou entãos. Optei por entões, mas sem grande firmeza. Ocorre-me agora, além disso, que não cheguei sequer a ponderar um possível entães.) O fenómeno da multiplicação de entões costuma verificar-se principalmente em directos informativos. O jornalista semeia entões no discurso com o duplo objectivo de ocupar tempo mas também de conferir alguma noção de urgência à matéria relatada. Funciona assim: “Estamos então aqui onde foi então cometido o homicídio, eram então duas e meia da tarde. Tenho então junto a mim o sargento Fernandes, que é então o comandante do posto da GNR que fica então mais próximo deste local.” Um passatempo divertido consiste em apostar no número de entões que determinada intervenção em directo vai ter. Estou disponível para discutir direitos de autor com a Santa Casa, na eventualidade de o Toto-Então começar a ser comercializado. O jogo pode ser bem-sucedido porque, na verdade, a multiplicação de entões não ocorre apenas em reportagens, mas em qualquer espécie de improviso, por pequeno que seja. Por exemplo, na meteorologia (“na Guarda vão estar então 18 graus”), quando alguma coisa não corre de acordo com o previsto (“perdemos então o contacto com o nosso enviado especial”) e até nas despedidas (“desejo-lhe então um bom fim-de-semana”). Fica então a sugestão para podermos então jogar então.


Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

quarta-feira, março 29, 2017

A equipa das esquinas

'O grupo contará (hoje), no Estádio da Luz, com elementos de algumas das principais claques legalizadas, sendo liderado por Fernando Madureira, dos Super Dragões. O apoio tem sido constante desde o Campeonato da Europa e foi tornado por iniciativa do departamento de marketing da Federação Portuguesa de Futebol', in 'O Jogo', 24 de Março de 2017

Por ocasião do Campeonato da Europa, o do Éder, e por via da leitura de umas quantas notícias nos jornais, instalou-se, no último verão, a suspeita de que os serviços dos Super Dragões à causa patriótica incluíam o comércio de bilhetes para os jogos da Selecção, insinuação torpe nunca desmentida pelos serviços competentes da Federação Portuguesa de Futebol. Isto, sendo lamentável não bastará para justificar o silêncio do Conselho de Disciplina da FPF e a aparente inoperância do órgão disciplinador perante a suspeita de que os mesmos serviços da mesma claque incluíram no seu rol de actividades patrióticas a invasão, no último inverno, do centro de treinos dos árbitros, na Maia, Já vai para três meses.

Para a moral vigente, sem dúvida que tem mais valor ameaçar cidadãos nos seus locais de trabalho do que em esquinas esconsas das nossas cidades e lugarejos. Por mania de embirrar, tudo leva a crer que terá sido esta, entre outras delongas do âmbito disciplinar, a razão pela qual o Benfica, apesar de ter sido convidado, não se fez representar na gala das Quinas de Ouro o que logo lhe valeu mais um processo, não por ter faltado mas pela justificação retórica com que explicou a sua ausência. Foi, na realidade, grande falta de respeito do Benfica pela macacal figura que voltará esta noite ao Estádio da Luz na farpela de convidado de honra pela FPF - contratado não será, certamente, pois não? - para demonstrar ao vasto público presente nas bancadas como se puxa pela Selecção, essa arte dificílima de levar a cabo já que aquele futebolzinho de Cristiano Ronaldo & companhia, na realidade, não entusiasma ninguém.

Está de parabéns, portanto, o departamento de marketing da Federação Portuguesa de Futebol que, depois de leitura atenta de autobiografia do líder dos Super Dragões, entendeu ser ele a figura recomendável para consubstanciar os valores da Pátria no apoio à Selecção. Viva, portanto, a equipa das esquinas mais o departamento de marketing! Longa vida, também, no Conselho de Disciplina!

E, já agora, ainda haverá bilhetes?


Fonte: Leonor Pinhão @ Record

segunda-feira, março 27, 2017

Frases - III


"User experience is everything. It always has been, but it’s undervalued and underinvested in. If you don’t know user-centered design, study it. Hire people who know it. Obsess over it. Live and breathe it. Get your whole company on board."
  - Evan Williams, CoFounder, Twitter

sábado, março 25, 2017

A inteligência amarela

E , subitamente, o V. Setúbal, o carrasco que nesta edição do campeonato sonegou 5 pontos ao campeão, transformou-se à pala do esforço do seu coletivo e de dois toques de magia de um tal João Carvalho naquilo a que se pode chamar, com toda a propriedade, ‘o abono de família do Benfica’ porque foi ao Estádio do Dragão empatar com o FC Porto exibindo uma total desconsideração pelo programa das festas, um supino descaramento perante o ‘status quo’ e uma inaceitável falta de humildade perante o triste fado que lhe estava traçado. 

Frustração, tristeza, deceção – foram estas as palavras com que Nuno Espírito Santo resumiu o que lhe ia na alma mal o jogo terminou. Mas não serão estas as palavras condescendentes com que a massa adepta do FC Porto terá avaliado o trabalho do seu treinador e da sua equipa consumado o empate caseiro com o V. Setúbal. 

E tal como muitos adeptos do Benfica, aqueles menos sugestionáveis pela bolorenta tradição de assacar aos árbitros todas as culpas, se recusaram a ver numa eventual grande penalidade perdoada ao Paços de Ferreira nos derradeiros segundos do jogo a explicação completa para a exibição ineficaz e para o triste nulo de sábado, também muitos adeptos do Porto, os menos sugestionáveis pelos ditames da propaganda, não aceitarão no seu íntimo que houve 2 pontos a voar no domingo por causa de o árbitro se ter recusado a apontar, no mínimo, três vezes para a marca de penálti como era costume antigamente. 

Esta foi a jornada em que, para lá do exposto, se viu fortemente abalada pelos acontecimentos reais a teoria da chamada gestão inteligente dos cartões amarelos que, em termos práticos de resultados, se revelaria de uma burrice a toda a prova. 

Com conivências inadmissíveis na exigência de um 5º cartão que o colocaria fora do clássico, o massacre a Pizzi durou uma semana inteira nas primeiras páginas dos jornais e redundou num fracasso. Por outro lado, com cânticos à sagacidade de Nuno Espírito Santo, a tal gestão dos amarelos a pensar no clássico tirou Maxi Pereira e André André do joguinho a feijões com o V. Setúbal. 

E, agora, vão lá perguntar aos adeptos portistas se não lhes fizeram falta, no domingo, os dois excedentários do assalto falhado à liderança. Certo é que também Pizzi vai jogar o clássico. E Felipe também lá estará, se bem que podia ter sido expulso sem escândalo nos instantes finais do jogo com o Vitória. 

Mas não foi expulso e ainda bem. Quem sabe se não volta a escorregar no Dia das Mentiras e, assim, cairá uma vez mais por terra o trabalho porfiado dos cientistas dessa extraordinária especialidade de gestão em cartões amarelos. 



Outras histórias... 
Reescrever a História na Costa Remediada 
A inauguração do Pavilhão ex-João Rocha, esse incompetente.  
Em digressão pela Costa Rica, o presidente do Sporting admitiu fazer o sacrifício de prolongar a sua estada se o proposto martírio, pacífico ou caribenho, tanto faz, garantir que o Sporting continua a recuperar os pontos que leva de atraso dos seus alegados rivais como aconteceu no último fim de semana. 

É que ambos, por comparação com o Sporting, continuam muito bem instalados no topo da tabela. Na condição de líder ou em qualquer outra condição, Bruno terá, no entanto, de regressar ao país já em abril para proceder formalmente à inauguração do Pavilhão João Rocha ou, melhor, do Pavilhão ex-João Rocha. 

Isto, tendo em conta que, de acordo com o que afirmou perentoriamente a um oceano de distância, nem João Rocha prestou para alguma coisa como presidente do Sporting. Nem Rocha, nem nenhum outro se lhe chega aos calcanhares. "Em 110 anos não vi um presidente preocupado com a nossa identidade", disse na Costa Rica. Ou na Costa Pobre. Ou terá sido na Costa Remediada?


Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha


Núncio costureira e Núncio patroa

A revista à portuguesa já não é o que era. Quando Paulo Núncio resolveu reeditar a rábula clássica da Olívia costureira e Olívia patroa, todos ficámos com ainda mais saudades de Ivone Silva. Do ponto de vista do texto, Núncio começou por revelar imaginação: a actualização do número, transformando a dicotomia 
Olívia costureira/Olívia patroa na moderna Núncio advogado especialista em evasão fiscal/Núncio secretário de Estado dos 
Assuntos Fiscais, deu frescura e novidade à rábula. 
O problema é que Núncio, muito menos talentoso do que Ivone Silva, é manifestamente incapaz de representar duas personagens diferentes. O Núncio secretário de Estado mantinha a tal ponto as motivações e os tiques do Núncio advogado que era praticamente impossível distingui-los. Assim se vê a falta que faz um bom director de actores.
A rábula original vivia, precisamente, da tensão gerada, na mesma pessoa, por duas personalidades antagónicas. Em certo passo célebre, Ivone Silva queixava-se: “Ó mulher, tu sabes lá o que é uma 
pessoa adormecer do PCP e acordar do CDS.” Núncio não passou pelo mesmo problema porque, como ficou claro, adormeceu advogado e, enquanto secretário de Estado, esteve sempre a dormir. Perdeu-se por completo a densidade humorística – embora, curiosamente, haja quem tenha ficado a rir, e muito.

O momento em que a Olívia costureira topava no espelho com a Olívia patroa também não transitou para o novo número. Ivone Silva insultava-se a si mesma, porque na verdade tinha duas almas, ao passo que Núncio não tinha nenhuma, uma vez que a tinha posto à venda logo no começo da rábula. Desperdiçou-se uma oportunidade de ouro para fazer bons jogos de palavras, tão ao gosto popular. O Núncio secretário de Estado poderia esconjurar o Núncio advogado dizendo “Abrenúncio, Núncio!”, ou insultá-lo de “pafúncio Núncio”, por exemplo. Executada deste modo, a rábula teria feito rir a plateia. Assim, fez chorar os contribuintes. Também tem graça, mas é bastante mais amarga. E, para este tipo de espectáculo, o bilhete acaba por ser sempre mais caro.

Os apreciadores de teatro de revista terão sentido falta, também, do número musical que costumava fechar a rábula. Assunção Cristas bem tentou, mas apresentou-se desacompanhada de viola e guitarra, e a cantiga que entoou não conseguiu convencer ninguém. Foi pena.


Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão



segunda-feira, março 20, 2017

Frases - II


"Remember to celebrate milestones as you prepare for the road ahead."
  - Nelson Mandela


sábado, março 18, 2017

Estão com medo do Pizzi ?

O Benfica joga esta noite em Paços de Ferreira e, para além da valia dos donos da casa, já sabe com o que contar. O Pizzi tem de ver um cartão amarelo dê lá por onde der. Um cartão amarelo que o impeça de defrontar o Porto daqui por duas semanas sob pena de o árbitro, se for o do talho, ficar sem talho, se for o do restaurante, ficar sem restaurante, se for o da advocacia, ficar sem escritório, se for o bancário, ficar sem balcão de atendimento ao público. Estão com medo do Pizzi? Parece que sim. Imagine-se, ter medo do Pizzi, esse excedentário do futebol português que só foi agora chamado aos trabalhos da Seleção porque o selecionador, de tanto ouvir falar no Pizzi e no Pizzi e, outra vez, no Pizzi, se lembrou que o Pizzi existia. E poderia parecer mal não dar uma oportunidade a um jogador de que toda a gente fala por amor à verdade desportiva e por respeito aos bens materiais e imóveis dos nossos pobres árbitros que não têm quem os defenda.

Pizzi, atenção, hoje à noite em Paços de Ferreira não te ponhas com continências que podem ser consideradas flagrante atitude de grosseria para com as instituições militares tendo em conta que és um civil nem, muito menos, te atrevas a franzir o rosto semicerrando os olhos quando te couber cobrar uma falta a favor do Benfica, isto se houver faltas a favor do Benfica, naturalmente. Aquele teu olhar maroto, tão característico, configura há 15 jornadas um grande desrespeito pela oftalmologia nacional. É hoje, Pizzi, é hoje.

Julgado, uma vez mais, improcedente, terminou no Tribunal Arbitral do Desporto o, afinal, não-caso dos vouchers. O queixoso reagiu através das redes sociais, o seu campo de eleição, clamando por uma “total sintonia entre os regulamentos disciplinares” do futebol e “as leis da República”. Ninguém com bom senso e espírito democrático poderá ser contra essa desejável concordância que, em boa hora, retiraria a todo o edifício do futebol o privilégio absurdo de se ver como um Estado à parte dentro do Estado a sério. Tome-se por exemplo o caso judicial que ficou conhecido como Apito Dourado em que o FC Porto foi condenado na justiça desportiva e os seus responsáveis ilibados na justiça civil. Ou, mais recentemente, o caso Cardinal em que o seu responsável foi condenado na justiça civil e que, entretanto, já prescreveu alegremente na justiça desportiva. Ah, que sinfonia seria se houvesse sintonia.


Fonte: Leonor Pinhão @ record


Trezentos minutos

O futebol mudou muito. Quer dizer, o futebol propriamente dito não mudou nada. Aqueles 90 minutos mantêm-se obedientes a dúzia-e-meia de regras, muito claras, que tornam o essencial acessível à inteligência de todos, incluindo criancinhas. Por vezes, há quem queira mexer nas leis deste jogo. Ainda recentemente apareceu um sujeito holandês a clamar pelo fim do offside, essa regra sem a qual qualquer burro pode ser um razoável futebolista. 

Imagine-se uma coisa destas. Não foi, portanto, o futebol que mudou nos últimos anos. Foi o público. Os adeptos, os associados e até os curiosos, que são imensos, à força de tanto noticiário e debate sobre economia, finanças e gestão dos clubes de futebol passaram a comportar-se como técnicos de contas sapientíssimos de balancetes e conscientíssimos das terríveis debilidades de tesouraria das suas grandes associações desportivas que vão fazendo pela vida neste cantinho da Europa. 

Assim se explica o indisputado fair-play com que encaixaram as esperadas más notícias os valentes adeptos do Benfica e do FC Porto que viajaram até Dortmund e até Turim para apoiar, ao vivo, as suas equipas nas respetivas decisões destes fatais ‘oitavos’ da Liga dos Campeões. Certos das dificuldades operativas dos seus conselhos de administração, conhecedores de todos os orçamentos, cientes dos valores do mercado e informados da nada desprezível quota-parte que, feitas as contas, lhes coube nesta edição do grande negócio do futebol europeu, os adeptos portugueses que estiveram nas Arenas do Dortmund e da Juventus despediram as suas equipas, consumadas as eliminações, com cânticos de louvor e trovoadas de aplausos. 

Será um sinal de progresso, este racionalismo que não se deleita em lamúrias? Das duas, uma: ou é um progresso porque os adeptos se viram livres da cegueira e reconhecem as limitações próprias ou, na realidade, não é progresso nenhum porque o que os adeptos do Benfica e os do Porto pretenderam ao ovacionar as suas equipas foi, muito interesseiramente, não as deixar cair em depressão depois das respetivas derrotas internacionais num momento em que se aproxima, a todo o vapor, o Benfica-FC Porto para o campeonato nacional. Que é o que interessa, como todos estamos de acordo. 

Para o FC Porto, porque jogou com 10 durante 100 minutos dos dois jogos com a Juve, será grande conforto voltar a jogar na Liga onde já jogou contra 10 por 9 vezes durante 300 minutos. Faz toda a diferença como se viu em Turim, em Vila do Conde, no Funchal, em Santa Maria da Feira, no Estoril e, em casa, com o Sp. Braga, com o Chaves, com o Tondela e, pela segunda vez, com o Nacional. É muito minuto. 


É uma mudança não ir para o Besiktas em vez de não ir para o Porto
E pronto, outro ano se passou. Cá estamos por março com o seu rol de promessas de mais uma primavera a caminho. Verdes como nunca, os pastos aparecem agora salpicados de florzinhas brancas e amarelas, é a vida do campo. 

A vida da cidade, por março, também apresenta as suas costumeiras manifestações que anunciam a estação. Nomeadamente em torno dos quiosques onde a população se junta para espreitar as primeiras páginas dos jornais constatando que, este ano, pela primavera, é o Besiktas o clube interessado em assegurar os serviços de Jorge Jesus. No ano passado, pela primavera, era o FC Porto. 

E por três vezes nas anteriores seis primaveras, foi também o FC Porto que se viu descrito como clube interessado nos mesmos serviços de Jesus. Tal como, na realidade, nunca foi para o Porto, o treinador também não vai, na realidade, para a Turquia. Mas é uma mudança não ir para o Besiktas em vez de não ir para o Porto. Um ligeiro cambiante primaveril não menos encantador.


Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

sexta-feira, março 17, 2017

O regresso ao momento mastóideu

O Momento Mastóideo (marca registada), 
que defini neste mesmo espaço em colunas anteriores, antecipando-
-me ao professor Eduardo Lourenço, continua a fazer aparições periódicas na imprensa portuguesa, e eu gostaria de continuar a registar essas ocorrências. Para os leigos que não conhecem ainda o conceito, recordo o episódio que inspira este instrumento indispensável para compreender a alma portuguesa e o próprio universo em geral. Quando, n’A Canção de Lisboa, Vasco Santana passa com distinção no exame de medicina, uma das suas tias exclama, com orgulho: “Rico filho! Ele até sabe o que é o mastóideo!” O mastóideo é, por isso, um tipo de erudição especial. Nem toda a erudição seduz tias. As tias podem aborrecer-se com o latim, desprezar o conhecimento dos clássicos, mas o mastóideo – o mastóideo é um poderoso deslumbra-tias. A imprensa portuguesa é uma tia fácil de encantar, e qualquer mastóideo a deixa maravilhada. Esta semana, vários jornais noticiaram o seguinte mastóideo: a geringonça vai ser estudada em Harvard. A notícia injectou um suplemento de orgulho lusitano nos leitores. Pessoalmente, imaginei um conjunto de académicos, uns envergando batas brancas, outros fumando cachimbos, a examinar demoradamente uma intervenção parlamentar de Catarina Martins, uma proposta de lei do PCP, um discurso de António Costa. Três jornais usaram a formulação “a prestigiada universidade norte-
-americana”, ao passo que outro preferiu “uma das mais prestigiadas universidades dos EUA”, e outro ainda optou por outro adjectivo: “a conceituada universidade norte-americana”. Em qualquer dos casos, fica claro que o prestígio e a conceituação migram do examinador para o examinado, na medida em que um estudioso respeitado só se debruça sobre tópicos extremamente respeitáveis.

Lendo melhor as notícias, percebe-se que um centro de estudos vai organizar um debate subordinado ao tema “Há futuro para a esquerda na Europa?”, e um académico português estará presente para dar o seu ponto de vista. O mais provável é que os americanos queiram saber mais sobre a geringonça porque, nesta altura, estarão especialmente interessados numa solução em que o chefe do governo é o segundo mais votado nas eleições. Não admira. Mas é preciso cuidado: 
a hipersensibilidade de Trump é famosa. Trata-se de uma pessoa que se ofende com rábulas televisivas, peças de teatro e com observações de Meryl Streep. Esse tipo de pessoa melindrosa costuma fazer tudo para cancelar simpósios universitários.


Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ visão

domingo, março 12, 2017

Se a bola lá chegasse

Pela valia do adversário, o jogo de Dortmund tornou mais evidente o óbice maior deste Benfica que vai discutir, no derradeiro terço da época, os títulos que sobram - campeonato e Taça de Portugal, enfim, nada mau... - depois de ter sido despedido da Taça CTT em janeiro e da Liga dos Campeões na quarta-feira. A questão é que, mesmo com Fejsa operacional, o que nem sempre é o caso, o Benfica tem um problema de monta no seu meio-campo, onde parece faltar sempre alguém. E, na realidade, falta. 

Alguém capaz de carregar a equipa. De esticar o jogo sem tibiezas. Foi esse o papel de Renato Sanches, um médio, na segunda metade da época de 2015/16 valendo ao Benfica uma recuperação que lhe garantiu a conquista do título interno e um percurso honroso na Europa. Era esse também o papel de Gonçalo Guedes, um avançado, na primeira metade de 1016/17 valendo ao Benfica uma lideranda que, entretanto, se esboroou. Nem Sanches nem Guedes alguma vez foram goleadores natos mas eram rápidos, fortíssimos nas situações de um para um que desbloqueiam os emaranhados no miolo do jogo e projetam a equipa para a frente arrastando tudo e todos atrás de si. 

Aparentemente, no atual quadro de jogadores do Benfica, sendo um quadro riquíssimo, não existem jogadores com o reportório bravo de Sanches & Guedes. Sem maquinistas para o comboio, o Benfica perde-se agora nas dificuldades de estnder a sua presença no campo. Pior do que isso, perde frequentemente a bola nos momentos de transição ofensiva e não se vê maneira de o jogo chegar em substância aos homens da frente, que até são muitos ao dispor. E bons. 

Em Dortmund, o melhor que o Benfica conseguiu foi obrigar o árbitro a mostrar um cartão amarelo a Gonzalo Castro e um outro amarelo a Dembélé. Curiosamente, nenhuma destas sanções se ficou a dever a arrancadas letais dos seus dos seus alas ou a desequilíbrios fulminantes nascidos dos pés dos seus médios-ofensivos. Foi André Almeida quem provocou o amarelo a Castro e foi Eliseu quem provocou o cartão amarelo a Dembélé. E ainda foi o mesmo Eliseu quem provocou um segundo amarelo a Dembélé a que o árbitro amavelmente, se escusou. Almeida e Eliseu, imagine-se, dois jogadores a quem não se exige mais do que competência defensiva a fazer o trabalho do desequilíbrio que competia aos companheiros mais avançados. Se a bola lá chegasse, evidentemente.


Fonte: Leonor Pinhão @ record


sábado, março 11, 2017

Muito gelo e massagens

O Benfica ficou-se pelo caminho nos oitavos de final da Liga dos Campeões o que não é, propriamente, uma notícia sensacional. Já o contrário seria uma proeza do mais alto gabarito. Por falar em gabarito, foi precisamente isso que faltou aos tricampeões nacionais na meia hora final do jogo de Dortmund quando trocou o honroso papel de credível oponente na discussão com a equipa alemã pelo triste papel de conjunto goleado sem apelo nem agravo.
São coisas que acontecem com a maior das naturalidades a quem anda nestas coisas. Podem, se quiserem, os adeptos do Benfica procurar conforto nas desgraças alheias que, pela expressividade dos números e dos nomes envolvidos, foram bem mais sonoras do que as suas.
O que aconteceu ao Arsenal trucidado pelo Bayern com uns 10-2 na soma dos dois jogos e o que haveria de acontecer ao Paris Saint-Germain em Barcelona encaixando meia dúzia de golos como seria de esperar de uma equipa de pobrezinhos, podem servir de consolo para os lados da Luz.
E até de alívio perante o que poderia aguardar o Benfica nos quartos de final dando-se o caso de a equipa não ter entrado em colapso da mente e do físico quando sofreu o segundo e o terceiro golo no espaço de dois longuíssimos e penosos minutos. Os 4-1 da soma dos dois jogos com o Dortmund estão longe de ser o maior embaraço europeu da história do Benfica, mas a verdade é que o Benfica não fez boa figura, longe disso.
Na temporada passada, por exemplo, frente ao Bayern deixou o Benfica uma excelente imagem vendo- -se afastado por um tangencial 3-2 que não só não deixou mágoas na alma da equipa como a ajudou a acreditar em si própria e a projetar-se para a saborosa conquista do tricampeonato.
De regresso à sua realidade nacional, importa agora adivinhar o peso que terá a goleada sofrida na Alemanha no percurso do Benfica até à última jornada da Liga. Fosse isto boxe e poder-se-ia dizer que o Benfica se aguentou com valentia nos primeiros três assaltos com o Dortmund mas claudicou com estrondo no assalto derradeiro que o encostou às cordas e deixou estendido num KO de maus agouros.
Caberá a Rui Vitória, treinador e responsável máximo, inventar panaceias para minimizar os danos provocados pela jornada europeia. O próximo jogo com o Belenenses dirá muito sobre a arte curandeira do treinador. Gelo, muito gelo, e massagens costuma ser a receita para casos destes.
Mas, além do frio que atenua a dor e dos toques subtis que reanimam o espírito, muito jeito daria a Rui Vitória a ressurreição de Grimaldo e de Fejsa. E até umas visitinhas de um tal Jardel, lembram-se?


Outras histórias Uma visita ao Museu Cosme Damião A boa notícia é que Pedro Proença não desapareceu em combate O presidente da Liga foi visto a entregar a Vieira a taça correspondente aos três campeonatos que o Benfica conquistou nos últimos três anos. O diretor no exílio da comunicação do Benfica comentou que Proença lá conseguiu sair da Luz sem ter "prejudicado" o clube.
A questão é que Proença não fez favor nenhum ao Benfica ao entregar a dita taça, mas fez um grande favor a si próprio ao aparecer quando já se suspeitava que tinha desaparecido em combate. O ex-árbitro, agora patrão da Liga, que em tempos foi visto em alegre convívio com o senhor ‘Macaco’ numa ação de formação de jovens árbitros, não foi visto, nem ouvido em qualquer tipo de ação de deformação do ataque levado a cabo por uns quantos energúmenos no centro de treinos dos árbitros na Maia.
Ação disciplinar da Liga, népia, zero, está visto. Mas, ao menos, umas palavrinhas, uma douta opinião, um esboço de protesto, um arremedo de solidariedade do presidente. Mas não, zero também, népia também. Está visto.
Fonte : Leonor Pinhão @ correio da manha



sexta-feira, março 10, 2017

Um oscar de melhores oscars para estes oscars

Tal como Alexander Fleming descobriu a penicilina por acaso, remexendo nuns pratos bolorentos, também a academia dos Oscars pode ter encontrado, sem querer, uma excelente solução para um problema antigo. A maior parte dos nomeados perde tempo a escrever um discurso que acaba por não ter oportunidade de proferir. O facto de já terem podido desfilar na passadeira vermelha e referido o nome do costureiro que os vestiu– uma justa homenagem à indústria têxtil – não chega para os consolar. No modelo adoptado por engano no passado domingo, os nomeados vão ao palco, agradecem o prémio, e voltam a sentar-se. Na cerimónia deste ano isso aconteceu apenas uma vez, mas creio que a honra podia ser alargada a todos os nomeados. Consoante a qualidade do discurso de cada um, a Academia poderia até rever a decisão sobre o vencedor, retirando o prémio a um actor que represente bem mas agradeça mal, e distinguindo outro cujos dotes para agradecer e representar sejam mais homogéneos. E o espectador poderia assistir a cinco vezes mais homenagens aos pais, referências ao peso da estatueta, que continua a surpreender os premiados, e ao estado de nervos do galardoado.

Os Oscars fazem falta para premiar um tipo de indústria cinematográfica que não aprecia assim tanto o cinema. Boa parte das vezes, trata-se de atribuir uma estrela Michelin à melhor pastilha elástica. A ideia de premiar actores e actrizes em categorias separadas, mas não realizadores e realizadoras, ou editores de imagem e editoras de imagem, parece revelar que a representação, tal como o desporto, requer uma divisão de género. Mesmo assim, e uma vez que a cerimónia é tão curta, talvez pudesse haver mais subcategorias: o Oscar para melhor actor sub-23, ou para a melhor actriz sénior com salário acima de um milhão de dólares. A inclusão da faixa etária e da remuneração média ajudaria a premiar ainda mais actores, reduzindo o espaço dos profissionais que não interessam tanto, como os que os iluminam, penteiam ou lhes escrevem o que devem dizer.

O melhor de tudo foi isto: o erro da academia de Hollywood faz sonhar. Mostra que o vencedor errado ainda pode ser obrigado a ceder o lugar, se os responsáveis pela eleição disserem: "Desculpem, isto foi tudo um lamentável engano." Foi a grande mensagem política da noite, e uma inspiração para a América.


Fonte: Ricardo Araújo Pereira@Visão

segunda-feira, março 06, 2017

Frases - I

"Success is not what you have, but who you are."
Bo Bennet



Com arroz do mesmo

O mesmo fiscal de linha que não viu a falta cometida sobre Carrillo na área do Vitória de Setúbal nos instantes derradeiros do jogo no Bonfim a contar para o campeonato também não viu que Mitroglou estava em posição irregular quando marcou pela segunda vez no Estoril no jogo a contar para a Taça de Portugal. Que pena, que lástima não ser possível trocar a ordem destes erros de avaliação do "bandeirinha" de serviço, o que seria bastante, em prol da verdade desportiva, para o transformar em decisões corretas, corretíssimas, penálti em Setúbal - quem sabe se não resultaria em golo? - e golo invalidado na Amoreira - quem sabe o que nos reserva o jogo da segunda mão da meia-final da Taça de Portugal a disputar entre Benfica e Estoril no Estádio da Luz.

Prossegue, entretanto, em todo o seu esplendor a Operação Fénix nos tribunais e a Operação Fónix à porta das casas dos árbitros, e dos seus familiares e afins. Esta noite, em Santa Maria da Feira, vai apitar o Feirense-Benfica o mesmo árbitro que foi ameaçado de morte nas instalações do Centro de Treino dos árbitros na Maia. Continua vivo, portanto, e é essa a feliz ilação a tirar da sua nomeação para o jogo na Feira. O árbitro continua vivo e continuam à solta e com apetite os meliantes que o ameaçaram. Nunca se fartam de polvo, muito menos com polvo com arroz do mesmo.

Também Kostas Mitroglou não se farta de marcar golos. O grego tem sido uma bênção para o Benfica nesta fase em que o futebol dos campeões nacionais vem apresentando um bocadinho, enfim, bisonho. O departamento de marketing do Benfica, até para provar que também está dez anos à frente da concorrência, bem poderá encomendar bonequinhos de Mitroglou. Aquelas figurinhas com mola que se colam nos tabliers dos automóveis e que se agitam com o andar da carruagem. E, assim, teríamos em todas as viagens a companhia de Mitroglou e da sua maravilhosamente minimal e aristocrática forma de saudar o público, que o ama tanto, como a rainha de Inglaterra saúda os seus súbditos. Atenção, só a mão é que mexe. O bonequinho de Mitroglou, para ser um sucesso igual ao original, teria a respectiva mola na ligação do antebraço com a mão régia com que nos saúda no fim de cada jogo com toda aquela parcimónia só ao alcance de um predestinado."


Fonte: Leonor Pinhão @ Record

sábado, março 04, 2017

Rafa, um hat-trick, já!

O Benfica joga hoje à noite em Santa Maria da Feira e não vai ser fácil, até porque, como se tem vindo a notar desde o princípio da temporada, já não há jogos fáceis para ninguém na Liga portuguesa. Trata-se de um bom sintoma de equilíbrio competitivo para os amantes puros do jogo mas, por outro lado, do lado do clubismo exacerbado, trata-se de uma contumaz e mais do que certa carrada de nervos jornada após jornada. 

Nesta época de 2016/2017, têm sido escassas as goleadas com que, noutros tempos, as equipas dos grandes, e até as equipas dos assim-assim, brindavam os mais pequenos, nomeadamente nos jogos disputados em casa. Tudo isto a propósito do caso de Rafa, o excelente jogador que o Benfica foi buscar a Braga no verão passado e a quem o público e a crítica exigem agora que seja o intratável goleador que, na realidade, nunca foi, até porque não é essa a sua vocação. 

Na noite de terça-feira, no jogo da 1ª mão da meia-final da Taça de Portugal, Rafa fartou-se de labutar – aliás, por toda a primeira parte não se viu outro labutador tão obstinado vestido de vermelho – e ainda teve duas oportunidades de fazer golo que esbanjou "escandalosamente", segundo os exacerbados que, na sua sanha, nem conseguem reconhecer os altos méritos de Luís Ribeiro, o guarda-redes do Estoril, nos seus magníficos frente a frente com Rafa, o não-goleador em crise de golos. 

A absurda pressão sobre Rafa no momento de rematar à baliza é de tal monta que já não lhe bastará mais um golinho – ainda assim soma 2 tentos na Liga – para ultrapassar este transe e recuperar a confiança que, inevitavelmente, lhe vai faltando. Rafa precisa de fazer um hat-trick para calar as más-línguas e, para não perder mais tempo com cantigas, bem o podia fazer já hoje. Rafa jogou uma temporada, a de 2012/2013, no Feirense e marcou 11 golos ao serviço dos fogaceiros. Conhece, portanto, os cantos à casa, as peculiaridades do palco que vai voltar a pisar, a localização exata das balizas, os segredos dos ventos e a intensidade que irradia da iluminação artificial do simpático Estádio Marcolino de Castro. 

É hoje, Rafa! É hoje, independentemente de o mais jovem comendador do Benfica jogar pelo meio do campo nas costas de Mitroglou ou de jogar na ala esquerda ou na ala direita e, convenhamos, que tanta função geométrica diferente de Rafa não o ajudará, certamente, a decorar o lugar exato das balizas adversárias. 

Para terminar, um recado aos seus colegas: quando Rafa voltar a marcar, e está para breve, não lhe façam uma festa como se marcar um golo pelo Benfica fosse uma coisa do outro mundo. É que não é. 


Outras histórias 
Em defesa do bom-nome da classe 
Só se pede que o novo treinador do Leicester não seja português 
Depois de Claudio Ranieri, o Leicester terá inevitavelmente um novo treinador. A vida de uma equipa de futebol não se detém em pormenores de ingratidão nem em assomos de solidariedade. Só se pede que o novo treinador do Leicester não seja português. Sendo tão merecidamente alta a cotação dos treinadores portugueses que operam no estrangeiro seria grande lástima para o bom-nome desta classe profissional de emigrantes ver um deles assumir o cargo deixado pelo italiano que conduziu o Leicester ao título inglês surpreendendo o mundo. E que foi agora posto a andar perante a indignação do mesmo mundo. Ranieri é, neste momento, o treinador mais amado, mais simpático, mais considerado do planeta do futebol. O seu substituto, seja quem for, vai passar a ser o treinador menos amado, mais antipático, menos considerado por toda a gente que viu no despedimento de Ranieri uma injustiça tremenda. Sérgio Conceição, Vítor Pereira, façam-nos um grande favor, deixem-se estar onde estão. 



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

sexta-feira, março 03, 2017

Zuckerberg, 1 Shakespeare, 0

William Shakespeare acordou e, mal abriu a internet, constatou que tinha incendiado as redes sociais. Uma espectadora da peça "Romeu e Julieta" escrevera no facebook uma crítica que se tornara viral. A autora do texto estava triplamente ofendida: como italiana, rejeitava a ideia de que a boa gente de Verona fosse capaz de oprimir daquela forma dois jovens amantes ("o sr. Shakespeare que olhe bem para Stratford-Upon-Avon, que certamente encontrará mais intolerância lá do que em Verona", dizia a crítica, sob a indicação "a sentir-se furiosa"); como farmacêutica, considerava completamente irresponsável a insinuação de que um jovem poderia adquirir numa farmácia, sem receita médica, um frasco de veneno; como encarregada de educação de uma rapariga de 16 anos, lamentava que uma peça protagonizada por um casal de jovens, com potencial para transmitir uma mensagem positiva, terminasse em morte, "quando todos sabemos que o suicídio adolescente é uma realidade que realmente, etecetera". Quando leu que a página do Globe Theatre tinha sido invadida por centenas de mensagens de protesto, William assustou-se e, à cautela, aproveitou para colocar a tragédia em que estava a trabalhar nessa altura, chamada "Titus Andronicus", no recycle bin.

Shakespeare tentou aconselhar-se com alguns amigos, mas foi impossível. Primeiro ligou para Cervantes, cuja editora tinha acabado de se distanciar de um livro da sua autoria chamado "D. Quixote".

"Numa altura em que toda a sociedade está empenhada em promover a importância da leitura", dizia o comunicado, dando razão às objecções de vários utilizadores do twitter, "não se admite que sejam os próprios escritores a sugerir que a leitura prejudica a saúde, como sucede nesta obra, em que a personagem 'D. Quixote' enlouquece por ter lido livros de cavalaria. Esta chancela não se identifica com essa ideia e lamenta ainda que um dos seus autores tenha colocado um louco a protagonizar um livro cómico.

A doença mental não é uma brincadeira." Depois, enviou um e-mail a Eça de Queirós, que também estava envolvido numa polémica depois de um jornal online ter publicado um texto intitulado "Cinco coisas que Carlos da Maia fez com a irmã (você não vai acreditar na terceira)".

Shakespeare pensou então que talvez o seu amigo Nabokov tivesse tempo para ele. Infelizmente, Vladimir estava a reescrever a "Lolita", na sequência da retirada da primeira edição das bancas, em resultado de uma enxurrada de reclamações de pais de meninas de 12 anos. Nesta segunda versão, chamada "Dona Lola", Humbert Humbert desenvolve uma obsessão por uma mulher de 53 anos, da qual se torna padrasto, após casar com a sua mãe, de 80.

Sem saber o que fazer, Shakespeare resolve então refugiar-se no Algarve. No entanto, é barrado na fronteira. "Um inglês no Algarve?", pergunta o guarda alfandegário. "Trata-se de um estereótipo nocivo, que perpetua comportamentos e reforça atitudes.

É melhor não.


Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão