domingo, abril 30, 2017

Sem chantagem fantástica

O argelino Brahimi, que, no arranque da temporada, pouco contou internamente para o seu treinador, é agora a pedra de toque da revolta portista. Não da revolta contra o treinador mas da revolta contra o órgão disciplinar externo que suspendeu o jogador por dois jogos na sequência dos desacatos inerentes ao penúltimo empate do Porto na Liga, que aconteceu em Braga. 

Brahimi cumpriu o seu primeiro jogo de castigo no último fim de semana, não comparecendo na ficha do jogo com o Feirense – o tal adversário que eram favas contadas –, e poderá voltar a ficar de fora esta noite em Chaves, onde o Porto se desloca para um desafio que, segundo todos os prognósticos pós-empate na Luz, também está no papo antes mesmo de ser jogado. 

O presidente do Porto tem feito os possíveis para Brahimi ser despenalizado a tempo de poder jogar hoje em Chaves. A propósito deste assunto, escreveu até uma carta ao presidente da Liga de Clubes – ou terá sido ao presidente da Federação? – e na última quarta-feira deslocou-se de propósito a Lisboa para se reunir com Pedro Proença e Fernando Gomes, com quem, certamente, terá discutido a situação disciplinar do excelente jogador argelino, entre muitos outros temas que o sobressaltam neste momento tão agitado da nossa sociedade. 

Diga-se que é perfeitamente legítima a ação desencadeada por Pinto da Costa para libertar Brahimi do segundo jogo de suspensão. 

Foi junto dos canais próprios que o presidente do Porto impôs o seu estatuto e moveu as suas influências, que, apesar do que se diz para aí, ainda serão suficientemente ponderosas para merecer a atenção dos órgãos disciplinares superiores. 

No entanto, à luz da História Documentada do Futebol Português, a pouca sorte de Brahimi em todo este caso da suspensão é ser um jogador internacional, 100% argelino, que atua em Portugal no ano de 2017. 

Se Brahimi atuasse no ano de 2003 e fosse 100% ou 50% português e jogador da nossa seleção – tal como era Deco quando se viu suspenso por três jogos por atirar com as botas ao árbitro Paulo Paraty –, ainda haveria inspiração para "plantar" num qualquer jornal isento que o bom do Brahimi, profundamente indignado com o castigo, se iria recusar a alinhar pela equipa das quinas na Taça das Confederações. 

Ao nosso compatriota Deco esta "chantagem fantástica" valeu-lhe a redução do castigo de 3 para 2 jogos, como haverão de estar recordados os que, há 14 anos, seguiram o caso com patriótica preocupação. Jogue ou não jogue Brahimi esta noite em Chaves, a verdade é que o patriotismo já não é o que era. Por um lado, ainda bem. Por outro lado, ainda mal. 



Mais um penálti por assinalar a 80 metros de distância da área 
Não é uma novidade na arte do "comentadorismo" científico dos jogos de futebol. Não é novidade porque já tinha acontecido o mesmo na temporada de 2015/2016 quando um especialista na matéria – o ex- -árbitro Jorge Coroado – entendeu que deveria ser punida com uma grande penalidade contra o Benfica uma falta ofensiva cometida por Luisão na área do Arouca - sim, na área do Arouca… - na sequência de um canto a favor do Benfica. 

A dissecação audiovisual do último derby persistiu magnificamente em produzir um momento semelhante de originalidade na interpretação das Leis do Jogo a propósito de uma falta cometida pelo benfiquista Cervi sobre o sportinguista Schelotto na área do Sporting – sim, na área do Sporting, a 80 metros da área do Benfica… - entendida por vários especialistas como passível de punição com o castigo máximo contra o campeão nacional. 

No futuro, se entregarem as decisões do vídeo- -árbitro a este tipo qualificado de especialistas, vai ser bonito vai…



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da mannha

sábado, abril 29, 2017

O pôr-do-sol e o exantema maculopapular

Quando, por volta de 1796, o cientista Edward Jenner introduziu a vacina contra o sarampo, estaria longe de imaginar que, mais de dois séculos depois, o seu trabalho viria a ser contestado, não por médicos, mas por estrelas de Hollywood que, de vez em quando, interpretam o papel de médicos. É fácil argumentar com médicos, mas é bastante mais difícil discutir com pessoas que fazem de médicos.

As pessoas que fazem de médicos, em geral, sabem muito mais de medicina.

Em defesa dos detractores, é preciso reconhecer que a vacina contra o sarampo tem uma origem suspeita.

Jenner verificou que as senhoras que ordenhavam vacas, e que tinham contactado com o sarampo vacum, desenvolviam uma quase imunidade à variação humana do vírus, que é muito mais forte. Não se sabe porque é que Jenner resolveu dedicar-se a observar vaqueiras, mas a hipótese de o ter feito por mera curiosidade científica cheira a desculpa esfarrapada.

Em todo o caso, foi assim que se descobriu a vacina. Na verdade, todas as vacinas se chamam vacinas por causa da vacina contra o sarampo: a palavra vacina tem origem na palavra vaca, precisamente devido ao papel fundamental que o simpático bovino desempenhou no processo. Essa é uma das razões pelas quais é difícil compreender o argumento principal dos militantes anti--vacinas. Alegam que as vacinas provocam doenças como, por exemplo, o autismo, porque o processo não é "natural". Donald Trump, por exemplo, apresentou um contra-argumento célebre ao facto de não haver qualquer prova científica que corrobore a relação das vacinas com o autismo: "Estou-me borrifando." E os cientistas, sem pedalada teórica para o acompanhar, engoliram em seco, claro. No entanto, talvez os militantes anti-vacinas sejam sensíveis ao facto de a vaca, que está na origem até da palavra vacina, ser um bicho extremamente natural. Talvez possamos sensibilizá-los ainda para o seguinte: nem tudo o que é natural é bom. O veneno da cobra, por exemplo, é natural. O vírus do sarampo, também. Já possuir telemóvel e viver em casas com aquecimento central não é natural. Pode ser que dê que pensar.

Se nenhum destes argumentos convencer os militantes anti-vacinas, proponho que eles não sejam punidos legalmente. Defendo mesmo que devem ser livres para desfrutar ainda mais plenamente da sua opção de não vacinar os seus filhos, e possam ir viver para o século XVIII. Cria-se uma reserva ecológica para onde eles podem ir, com as suas charretes, e nós ficamos cá, completamente isolados, até para não os contaminarmos com a porcaria do nosso progresso.


Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

terça-feira, abril 25, 2017

25 Abril - A canção é uma Arma - VII

Por teu livre pensamento
Foram-te longe encerrar
Tão longe que o meu lamento
Não te consegue alcançar
E apenas ouves o vento


25 Abril - A canção é uma Arma - VI

Saudação à Revolução dos Cravos






25 Abril - A canção é uma Arma - V

Quando a nossa festa s'estragou
e o mês de Novembro se vingou
eu olhei p'ra ti
e então entendi
foi um sonho lindo que acabou
houve aqui alguém que se enganou






25 Abril - A canção é uma Arma - IV

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal:
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal!





25 de Abril - Salgueiro Maia


Ficaste na pureza inicial 
do gesto que liberta e se desprende.
Havia em ti o símbolo e o sinal
havia em ti o herói que não se rende.

Outros jogaram o jogo viciado
para ti nem poder nem sua regra.
Conquistador do sonho inconquistado
havia em ti o herói que não se integra.

Por isso ficarás como quem vem
dar outro rosto ao rosto da cidade.
Diz-se o teu nome e sais de Santarém
trazendo a espada e a flor da liberdade.


Manuel Alegre


25 Abril - A canção é uma Arma - III

Hino e bandeira da resistência contra a ditadura






25 Abril - A canção é uma Arma - II

À meia-noite e vinte minutos da madrugada do dia 25 de Abril de 1974, a «Grândola, vila morena» tocava na radio. A segunda senha de sinalização da Revolução dos Cravos. 





25 Abril - A canção é uma Arma - I

As 22:50 da vesperá do dia 25 de Abril iniciava-se a revolução.

segunda-feira, abril 24, 2017

Frases - VI


"Twenty years from now you will be more disappointed by the things that you didn’t do than by the ones you did do. 
So throw off the bowlines. 
Sail away from the safe harbor. 
Catch the trade winds in your sails. 

Explore. 

Dream. 

Discover. "


 -  Mark Twain, American Humorist and Author



sábado, abril 22, 2017

Pinto da Costa, o senhor 5%

Noutros tempos teria sido considerada uma afronta sem precedentes, uma aldrabice forjada sabe-se lá por quem, uma tentativa de assassinato por via audiovisual. Mas no tempo corrente, esta semana, não foi assim considerada a conclusão de um passatempo para os telespetadores da SIC instados a votar telefonicamente na eleição do presidente de clube "mais responsável" pelo ambiente de loucura que se vive no futebol português. 

O veredicto popular elegeu um vencedor – o presidente do Sporting reuniu 77% dos votos – e o vencedor deu uma verdadeira cabazada à concorrência, o que não espanta minimamente sendo o presidente do Sporting o maravilhoso exemplo de um produto acabado da era das redes sociais, dos reality shows e de tudo o que for preciso para clamar pela atenção dos periódicos, dos programas da TV, dos rouxinóis nos beirais, das revistas cor de rosa. Sobre as qualificações do vencedor do curioso passatempo da SIC nada há acrescentar. Foi justíssimo o triunfo. 

O que surpreendeu, de facto, nesta votação foi a modestíssima classificação obtida pelo presidente do FC Porto, outrora considerado O Papa e, por unanimidade, o "mais responsável" de todos os responsáveis e, algo injustamente, até dos irresponsáveis que escreveram a história do futebol português nas últimas três décadas. 

Aconteceu, portanto, na modernidade em que vivemos, ser o presidente do FC Porto considerado ‘responsável’ pelo atual momento bélico da nossa bola por apenas 5% dos votantes do concurso popular. Imagine-se, 5%! Como caiu a reputação daquele que chegou a ser considerado como ‘o homem da caixa’ e ‘o engenheiro-mor’ de acordo com as gravações do processo Apito Dourado disponíveis ainda hoje no YouTube. 

O último senhor 5% da sociedade portuguesa foi o arménio Calouste Gulbenkian, o magnata a quem cabia 5% da exploração petrolífera nos territórios do velho império otomano. O novo senhor 5% da sociedade portuguesa é um presidente de um clube, um dirigente vetusto que já foi considerado 100% responsável por tudo o que acontecia no futebol português e que se vê hoje relegado para o fundo da tabela. 

E porquê? Como foi possível uma reviravolta destas? 

A verdade é que o quase octogenário Pinto da Costa abdicou do seu papel tonitruante a favor do presidente do Sporting que, por ser presidente do Sporting e um rapaz de meia-idade, lhe pareceu a pessoa ideal para fazer a guerra ao Benfica e assumir todas as despesas da chinfrineira institucional. 

Não lhe tem valido de muito, é verdade. Valeu-lhe só o descanso. 



Outras histórias... 
Foi o árbitro ou foi Ronaldo?  
E o Bayern "quase" ofuscou a exibição do Sporting em Madrid  
A Europa discute se a qualificação do Real Madrid para as meias-finais da Liga dos Campeões se ficou apenas a dever ao árbitro que não expulsou Casemiro e ignorou a velha lei do fora de jogo em lances capitais do jogo ou se, mais determinante, terá sido a assombrosa demonstração da eficácia de Cristiano Ronaldo, autor de três golos em Madrid depois de ter sido autor de dois golos em Munique no primeiro jogo. Esta discussão filosófica continuará acesa por muito tempo porque jogar contra 10 é muito diferente de jogar contra 11. 

Na Liga portuguesa, por exemplo, o Porto já jogou por 9 ocasiões contra 10 num total de 300 minutos de tempo útil de jogo. É caso para se dizer que o Porto em 2016/2017 tem mais e-mails na gaveta do que adversários completos dentro das quatro linhas. 

Quanto ao Bayern de Munique, foi notável a exibição que fez em Madrid na terça-feira. Pode-se dizer que o Bayern quase ofuscou a exibição do Sporting no mesmo recinto no outono passado. Quase...



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha


quinta-feira, abril 20, 2017

Javardice geracional

Correm-me muitas vezes os imortais versos de Camões: 
“Descalça vai para a fonte / 
Lianor pela verdura; / 
Vai fermosa, e não segura / 
De maneiras que vou apalpar-lhe o pipi.” 

A maior parte dos alunos tomou contacto com outra versão do poema, mas eu li-o num volume que pertencia ao meu pai, que é da geração de José Mayer, e era assim que eles aprendiam. José Mayer é o actor brasileiro que, na semana passada, foi acusado de assediar sexualmente uma colega de trabalho: “Colocou a mão esquerda na minha genitália”, denunciou a vítima. Depois de, num primeiro momento, negar as acusações, o actor acabou por emitir um comunicado pedindo desculpa. O texto é um primor de coerência, porque consegue ser quase tão ignóbil como o acto que lhe deu origem. Mayer começa dizendo: “admito que minhas brincadeiras de cunho machista ultrapassaram os limites do respeito”. É uma interessantíssima exibição de pequenez disfarçada de grandeza. Colocar a mão em genitálias alheias contra a vontade das suas proprietárias é um acto que não costuma ser caracterizado com a palavra “brincadeira”. O Código Penal, por exemplo, prefere a designação “crime”. Em vez de admitir um crime – que, como é próprio dos crimes, ultrapassou os limites da lei –, Mayer admite uma brincadeira que ultrapassou os limites do respeito. Ou seja, na prática admite que não admite o que devia estar a admitir. Receio que este tipo de arrependimento light funde uma nova tendência. Que seja uma questão de tempo até que um assassino lamente as suas brincadeiras de cunho violento, ou que um corrupto peça perdão pelas suas brincadeiras de cunho financeiro.

Numa reviravolta inesperada, Mayer revela ainda que também é vítima, acusando: “sou sim fruto de uma geração que aprendeu, erradamente, que atitudes machistas, invasivas e abusivas podem ser disfarçadas de brincadeiras ou piadas.” Há, nesta história, duas vítimas – e nenhum criminoso. A figurinista Susllen Tonani foi vítima de Mayer, e ele, coitado, foi vítima da sua geração. Foi essa geração bandida (que, aliás produziu outros visigodos apalpadores de vaginas à má fila, tais como os porcalhões Caetano Veloso, Chico Buarque ou Gilberto Gil) que incentivou Mayer a brincar às agressões sexuais. 
O realizador de Os Acusados, que é da mesma geração de Mayer, deve ter ficado confuso com o modo como o seu filme foi recebido: pôs Jodie Foster a protagonizar uma divertidíssima comédia e a academia de Hollywood premiou a actriz pela qualidade da sua interpretação dramática. Esquisito. O júri dos Oscars devia ser de outra geração e entendeu mal o filme.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

segunda-feira, abril 17, 2017

Frases - V


" Winners never quit and quitters never win."
  -  Vince Lombardi

sábado, abril 15, 2017

Mas “legalizar” o quê?

Existe uma contradição evidente na expressão “claque legalizada”. Trata-se de uma anormalidade. Permite, por exemplo, a instalação do caos num aeroporto em território nacional. Entoando obscenidades, chega à zona de embarque a “claque legalizada” escoltada por uma força policial do Estado português. Cientes do saque iminente, correm os comerciantes a salvar as suas lojas “duty free” cerrando taipais e instando os passageiros a fugir porque chegaram os bárbaros. Bárbaros, sim, mas “legalizados”! Os passageiros que têm a desdita de embarcar no mesmo voo são obrigados a uma viagem “legalizada” tendo de suportar a companhia do desacato permanente enquadrado por meia dúzia de polícias cuja presença se destina a isolar, a milhares de pés de altitude, o grupo ululante de putativos cadastrados.


A falência total das leis permite isto. Enquanto o bom senso só pode exigir a ilegalização das claques, o fanatismo eleva a legalização das claques ao patamar supremo da civilidade ao ponto de uma claque que incendeia as bancadas de um estádio ser respeitável porque, sendo “legalizada”, nada do que fizer a desmerece perante a lei e os costumes. Também o papel desempenhado pela imprensa tem sido lamentável. Recentemente, quando as equipas de um campeonato regional, por motivos mais do que legítimos, se recusaram jogar contra uma equipa em particular logo houve – que tristeza! – uns quantos jornalistas que se prontificaram a alinhar num jogo “amigável” com a tal equipa problemática para que se fizesse prova das boas intenções e do fair-play da canelada. Já o episódio mais recente – uma “sátira” sobre uma tragédia real – mereceu do Benfica e do Porto dignas posições institucionais. O Benfica fez o que devia fazer. O Porto fez o que devia fazer. Agora só falta a FPF e o IPJD fazerem o que devem fazer. Mas não vão fazer nada. A uma “claque legalizada” todas as sátiras são autorizadas desde que a exausta polícia lá esteja para que, fingindo, se normalize a anormalidade.


Entretanto, ontem, a mesma equipa do Benfica que tão mal tinha jogado em Moreira de Cónegos apresentou-se muito razoavelmente na Luz frente ao Marítimo construindo uma justa vitória na primeira parte. O Pizzi não viu nenhum cartão amarelo o que é absolutamente inacreditável tendo em conta que não fez uma única falta. Quanto ao Rafa, enfim, apresentou-se. Carrega, Rafa! E ele carregou.



Fonte: Leonor Pinhão @ record

Eu cartilho, tu cartilhas...

Com o desportivismo possível, quando faltam seis jornadas para o fim do campeonato e os nervos desfalecem perante a iminência de uma qualquer decisão, prestaria o mais alto serviço à paz e sossego no território nacional a estação de televisão que ousasse reunir os três diretores de comunicação dos três maiores clubes portugueses poupando, assim, aos estafados representantes e comentadores do costume o esforço supremo das suas prestações semanais e aos não menos estafados telespetadores a trabalheira de os ter de ouvir na tentativa vã de destrinçar entre todos quem tem cartilha, quem não tem cartilha e quem melhor fora que não tivesse cartilha. 

Como está instalada a noção – bastante errada, aliás – de que os comentadores, as redes sociais e a vulgaridade em geral são quem ganha os campeonatos, dê-se, portanto, o palco aos responsáveis máximos pela comunicação dos três "grandes". 

Já imaginou, caro leitor, o "boom" de audiências que resultaria de uma emissão especial de televisão que sentasse à mesma mesa o senhor Saraiva em representação do Sporting, líder destacadíssimo do campeonato nacional da bola não fora a atuação do árbitro Jorge Sousa no dérbi da Luz, mais o senhor Marques em representação do Porto, comandante mais do que isolado do campeonato não tivessem ficado por marcar 47 grandes penalidades contra todos os adversários do FC Porto no campeonato e, finalmente, o senhor Bernardo em representação do Benfica que seria o tranquilíssimo dono do primeiro lugar dando- se o caso de o Benfica não ter esbanjado a gorda vantagem em joguinhos com Boavista, V. Setúbal e P. Ferreira? 

Num programa destes é que se revelaria, finalmente, quem conjuga melhor o verbo cartilhar. Poderão contrapor que semelhante verbo, cartilhar, nem sequer existe mas se numa modalidade tão popular como é o futebol se inventam pomposamente todos os dias verbos que não existem – como, por exemplo, ‘desposicionar’ – e fazem escola expressões de significado impenetrável – como, por exemplo, ‘receção orientada’ e ‘remates prensados’ – que mal tem que eu cartilhe, que tu cartilhes, que eles cartilhem? 

Por falar em cartilhas, tem-se revelado que a do senhor Marques do Porto é de todas a pior. Veio recentemente o senhor Marques acusar o senhor Bernardo do Benfica de ser "um saltitão" que saltou da ‘entourage’ de José Sócrates para o Estádio da Luz esquecendo-se de que o seu patrão, o senhor Pinto da Costa, até foi visitar o dito José Sócrates, seu bom amigo, à prisão depois de um fim de semana que lhe correu especialmente mal. Não se faz. Isto é amadorismo. 



OUTRAS HISTÓRIAS... 
A grande questão da atualidade 
Luta pela sobrevivência política das entidades empregadoras 
Eis que o grego Samaris se transformou na nova besta negra da comunicação do FC Porto e do Sporting que, compreensivelmente, lutam com tudo o que têm à mão pela sobrevivência política das suas entidades empregadoras. 

Não será necessário um intelecto muito acima da média para se concluir de uma penada que a eventualidade de o Benfica se sagrar, pela quarta vez consecutiva, campeão nacional deixará as gerências de Pinto da Costa e de Bruno de Carvalho muitíssimo mal vistas pelas respetivas massas de adeptos. 

É este o drama. Diga-se que o que Samaris fez em Moreira de Cónegos não se faz e o grego do Benfica será bem castigado e suspenso, mais cedo ou mais tarde. FC Porto e Sporting queriam mais cedo e o Benfica queria mais tarde. 

Não é de crer, no entanto, que o castigo a Samaris demore 9 meses a chegar, os mesmos 9 que demorou a chegar o castigo a Slimani depois da sua cotovelada sobre o mesmo Samaris na temporada passada. E porquê? Porque, francamente, parece mal.



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

quinta-feira, abril 13, 2017

Toxicodependência bancária

Será que, através da oferta de novas obrigações, o Novo Banco vai conseguir gerar fundos próprios elegíveis para o cômputo do rácio CET1? É uma pergunta à qual não sei responder, até porque não a percebo. Não faço ideia do que possa ser o CET1, sigla que, além do mais, tem uma sonoridade que desperta em mim memórias muito desagradáveis. 
E ninguém me tira da ideia que “cômputo do rácio” é uma expressão insultuosa. “Vai para o cômputo do rácio” parece-me um mote infalível para uma cena de pancadaria. Felizmente, o caso do antigo BES também tem sido descrito com outro tipo de linguagem, mais acessível a leigos como eu.

Primeiro, havia um banco bom e um banco mau. Até aqui, tudo bem. O enredo das telenovelas preparou-nos para entender este tipo de história: há dois bancos irmãos, mas um é bom e o outro é mau. Pode acontecer em qualquer família. Sucede que a vida financeira é mais complicada do que as telenovelas, e de repente descobriu-se que o banco bom tinha, dentro de si, um banco mau. Também se compreendia: o banco bom, provavelmente, tinha engravidado, e gerado uma instituição de crédito que saía ao tio. O drama que afectava estes bancos era igualmente familiar: os activos tóxicos. O Estado – que, ao que parece, é pai dos bancos 
– financiara-lhes a toxicodependência, e eles, como sempre acontece, gastaram tudo no vício.

Nisto, entrou na história uma outra personagem, chamada Lone Star. Por ser americana, e por ter tido neste processo uma certa postura de caubói, a Lone Star faz lembrar o Lone Ranger, aquele cavaleiro mascarado dos filmes, sempre coadjuvado por um índio chamado Tonto. Tal como sucede com o Lone Ranger, a identidade da Lone Star também é mais ou menos misteriosa. Sabemos apenas que vai tomar conta do banco, sendo coadjuvada pelo Estado – que, não tendo direito de voto, será obrigado a pagar todas as recaídas do filho, todas as novas incursões na toxicodependência, e ainda saldar dívidas antigas a traficantes do passado. O que significa que, como já desconfiávamos, nesta história, o Estado português é, obviamente, o Tonto.



Fonte: Ricardo Araujo Pereira @ Visão

domingo, abril 09, 2017

As próximas escutas

Fazendo figas para que as escutas da nova Operação Apito Dourado, que, segundo fonte judicial do mais alto gabarito, se chama agora Operação Vai Tu, estejam disponíveis daqui a meia dúzia de anos no YouTube para esclarecimento da população em geral, resta ao Benfica a tarefa árdua de vencer amanhã o Moreirense de Petit em Moreira de Cónegos, recordando, com afinco e entrega, como, por distracção e culpa própria, lhe foi interdito ganhar ao Moreirense de Augusto Inácio há dois meses e meio por ocasião do encontro nas meias-finais da Taça da Liga.

A corrente Operação Vau Tu incide sobre as relações fraternas entre bandos de marginais e suas ramificações em áreas sensíveis da sociedade civil num pequeno país na periferia da Europa. Vai ser de arromba, embora, como sempre acontece nestas coisas, não dê em nada, a não ser no espectáculo de exposição pública destes pecadilhos que, uns poucos de anos em cima, logo deixarão de ser dramáticos para passarem a ser cómicos. Tal como veio a acontecer com as escutas da velha Operação Apito Dourado que, consultando alguns pontos da presente nomenclatura do futebol português, também, aparentemente, nunca existiu.

Demorando todas estas coisas eternidades, o que se compreende, porque as autoridades empossadas pela nossa República têm mais que fazer, é de crer que não vai ser a Guarda Nacional Republicana a oferecer ao Benfica o primeiro tetra da sua História. Pelo que, sem delongas, deverá a equipa de futebol comandada pelo treinador Rui Vitória meter na cabeça que se não for a dita equipa a resolver o assunto, ninguém mais o resolverá. As últimas indicações prestadas apontam no sentido de que esta urgência foi já assimilada e interpretada por jogadores e técnicos.

Assim se compreenderá a exibição confrangedora da última quarta-feira e, mesmo assim, valeu aos tricampeões nacionais a qualificação para a final da Taça de Portugal. Faltando sete jornadas para o fim do campeonato e suspeitando-se de que o espírito 'cada jogo é uma final' está muitíssima bem instalado, só se admite o desconchavo geral do meio da semana como um propositado intento de baixara a fasquia de tal modo que, tudo o que venha a seguir, só possa ser melhor, muito melhor, incrivelmente melhor. Sabendo-se como a Operação Vai Tu vai demorar anos, terão os jogadores do Benfica de entender que se não forem eles, na realidade, não vai mais ninguém de jeito. O que também não é novidade."



Fonte: Leonor Pinhão @ record

sábado, abril 08, 2017

Restos de arroz à valenciana

Jonas, o Jonas do Benfica, não será propriamente um caceteiro de créditos firmados no futebol português e em todos os outros futebóis por onde passou. É até um tipo de compleição frágil e, acrescente-se, é já um senhor de provecta idade. Festejou no sábado passado 33 anos, o que o qualifica como um veterano a toda a prova para a profissão que elegeu. 

É agora três anos mais velho do que quando aterrou em Portugal e, já à época, a sua contratação foi considerada qualquer coisa de estapafúrdia sendo, como foi, considerado como um jogador fora do prazo de validade para as grandes e para as pequenas discussões. 

O atual treinador do FC Porto, Nuno Espírito Santo, era o treinador do Valência quando o clube espanhol, sabe-se lá porquê (mas desconfia-se…), decidiu retirar o Jonas da sua folha de salários e colocá-lo não no mercado, que sempre renderia algum provento, mas à porta pequena que dá para a rua para que, quem passasse, o levasse. Levou-o o Benfica, que ia a passar. 

Alguns meses mais tarde, quando Espírito Santo foi posto pelo Valência precisamente na mesma porta pequena por onde tinha saído o jogador brasileiro, não lhe deu tréguas a imprensa local acusando-o não só da carreira medíocre da equipa valenciana mas também da dispensa de Jonas, que, entretanto, já se fartara de marcar golos pelos encarnados. 

O Jonas, este mesmo Jonas, aproveitou a data do seu último aniversário para retribuir o carinho da multidão da Luz apresentando duas novidades nunca vistas do seu vasto e maravilhoso reportório com que ajudou o Benfica a conquistar dois títulos nacionais. 

A primeira novidade foi a de ter marcado, pela primeira vez, um golo a um dos grandes de Portugal, mais precisamente ao FC Porto treinado por Nuno Espírito Santo. A segunda novidade foi a de num rodopio, depois de um encosto de um adversário, ter ido esbarrar com o próprio Nuno Espírito Santo, que nem tugiu nem mugiu. E, nessa contenção, esteve de facto muito bem. 

A razão porque o treinador não tugiu nem mugiu explica-se facilmente. Para além do impacto não ter sido de intensidade capaz de derrubar um cavalete soma-se o interesse do treinador em não prolongar com Jonas, à vista de tanta gente, a conversa que ele próprio iniciara na véspera quando garantiu não ter sido da sua responsabilidade a decisão de correr com Jonas do Valência mal lá chegou. 

Veio agora exigir o Sporting que Jonas seja suspenso para que não jogue em Alvalade no fim do mês por causa dos restos do velho arroz à valenciana. Enfim, foi nisto que deu ter-se o Jonas estreado a marcar a um grande e a encostar-se a um não tão grande. 



Outras histórias... 
Que meias-finais da Taça Benfica e V. Guimarães estão no Jamor mas nem sabem como 
O Desportivo de Chaves, que cometeu a enorme proeza de afastar FC Porto e Sporting da Taça de Portugal, falhou nos últimos segundos do tempo extra uma grande penalidade que lhe asseguraria a qualificação para o Jamor depois de ter recuperado da desvantagem trazida de Guimarães e depois de ter comprometido o seu magnífico esforço sofrendo um golo pateta quando a equipa ainda festejava os impensáveis 3-0. 

No dia seguinte, o Estoril foi ao Estádio da Luz provocar sucessivos ataques de nervos ao campeão nacional e só não carimbou o bilhete para a final da Taça porque, inadvertidamente, o regressado Grimaldo safou com as suas preciosas costas uma bola que ia direitinha de Kléber para o fundo da baliza à guarda do confundido Júlio César. 

Ficou, assim, assegurada a reedição da final da Taça de Portugal de há 4 anos. A novidade maior é que Rui Vitória é agora o treinador do Benfica. 

E se a coisa, desta vez, lhe correr mal não vai lá estar nenhum Cardozo para o admoestar.



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

sexta-feira, abril 07, 2017

Almada Negreiros - Retrato de Fernando Pessoa

Retrato de Fernando Pessoa - por Almada Negreiros

José Sobral de Almada Negreiros (Trindade, São Tomé e Príncipe, 7 de Abril de 1893 — Lisboa, 15 de Junho de 1970) foi um artista multidisciplinar português que se dedicou fundamentalmente às artes plásticas (desenho, pintura, etc.) e à escrita (romance, poesia, ensaio, dramaturgia), ocupando uma posição central na primeira geração de modernistas portugueses.

Essencialmente autodidata (não frequentou qualquer escola de ensino artístico), a sua precocidade levou-o a dedicar-se desde muito jovem ao desenho de humor. Mas a notoriedade que adquiriu no início de carreira prende-se acima de tudo com a escrita, interventiva ou literária. Almada teve um papel particularmente ativo na primeira vanguarda modernista, com importante contribuição para a dinâmica do grupo ligado à Revista Orpheu, sendo a sua ação determinante para que essa publicação não se restringisse à área das letras. Aguerrido, polémico, assumiu um papel central na dinâmica do futurismo em Portugal: "Se à introversão de Fernando Pessoa se deve o heroísmo da realização solitária da grande obra que hoje se reconhece, ao ativismo de Almada deve-se a vibração espetacular do «futurismo» português e doutras oportunas intervenções públicas, em que era preciso dar a cara".

Mas a intervenção pública de Almada e a sua obra não marcaram apenas o primeiro quartel do século XX. Ao contrário de companheiros próximos como Amadeo de Souza-Cardoso e Santa-Rita, ambos mortos em 1918, a sua ação prolongou-se ao longo de várias décadas, sobrepondo-se à da segunda e terceira geração de modernistas. A contundência das suas intervenções iniciais iria depois abrandar, cedendo o lugar a uma atitude mais lírica e construtiva que abriu caminho para a sua obra plástica e literária da maturidade. Eduardo Lourenço escreve: "Estranho arco de vida e arte o que une Almada «Futurista e tudo», Narciso do Egipto da provocante juventude, ao mago hermético certo de ter encontrado nos anos 40, «a chave» de si e do mundo no «número imanente do universo»".

Almada é também um caso particular no modo como se posicionou em termos de carreira artística. Esteve em Paris, como quase todos os candidatos a artista então faziam, mas fê-lo desfasado dos companheiros de geração e por um período curto, sem verdadeiramente se entrosar com o meio artístico parisiense. E se Paris foi para ele pouco mais do que um ponto de passagem, a sua segunda permanência no estrangeiro revelou-se ainda mais atípica. Residiu em Madrid durante vários anos e o seu regresso ficou associado à decisão de se centrar definitiva e exclusivamente em Portugal.

Ao longo da vida empenhou-se numa enorme diversidade de áreas e meios de expressão – desenho e pintura, ensaio, romance, poesia, dramaturgia… até o bailado –, que Fernando de Azevedo classifica de "fulgurante dispersão". Sem se fixar num domínio único e preciso, o que emerge é sobretudo a imagem do artista total, inclassificável, onde o todo supera a soma das partes. Também neste aspeto Almada se diferencia dos seus pares mais notáveis, Amadeo de Souza-Cardoso e Fernando Pessoa, cuja concentração num território único, exclusivo, foi condição necessária à realização das obras máximas que nos deixaram como legado.


Fonte: Wikipédia

Fé por apenas 9 euros e 99

Os muçulmanos acreditam que uma espécie de cavalo alado transportou o profeta Maomé de Meca até Jerusalém numa noite. Os cristãos acreditam que um homem, nascido de uma virgem, voltou à vida três dias depois de ter morrido. Eu próprio acreditei que uma equipa formada por Preud’Homme; El Hadrioui, Jorge Soares, Ronaldo e Edgar; Leónidas, Jordão, Bruno Caires e Seo Jung-Won; João Pinto e Nuno Gomes, poderia sagrar-se campeã nacional na época de 1997/98. Cada um tem direito às suas crenças extravagantes.

Mesmo quem não é crente deve admitir que, em Fátima, se deu um milagre. Por um lado, como já tive oportunidade de confessar, não acredito que a mãe de Jesus tenha estado no concelho de Ourém em 1917. Em nenhum versículo dos evangelhos Nossa Senhora sugere, sequer, a intenção de algum dia visitar o Ribatejo. Não há uma referência elogiosa à lezíria, uma expressão de interesse pelas sonoridades do fandango, nada. Por outro lado, sou forçado a reconhecer que Fátima sofreu uma transformação prodigiosa. Não me refiro apenas ao impressionante número de pessoas que anualmente acorre à cidade para adorar a imagem da Virgem, aliás em clara transgressão do segundo mandamento. Falo sobretudo do milagre económico – aquele que nós, em Portugal, sabemos ser o mais difícil de conseguir. O desenvolvimento da cidade não deixa dúvidas, e há certamente dois ou três produtores de cera em cuja vida Nossa Senhora operou maravilhas. A partir de 2013, o Santuário passou a disponibilizar uma vasta gama de produtos, unindo finalmente o moderno merchandising e a antiga fé. De acordo com o Diário de Notícias, o artigo mais popular era o lenço do adeus (que custava, na altura, dois euros e meio), seguido de perto pelos crachás com a imagem da Virgem (um euro e meio), os guarda-chuvas de Nossa Senhora (9 euros), e as económicas t-shirts (15 euros o pacote de duas unidades). A loja online “Fátima Gift Shop” salienta: A devoção à Divina Misericórdia implica um compromisso completo com Deus enquanto Misericórdia. É a decisão de confiar completamente n’Ele, aceitar a Sua Misericórdia, e ser misericordioso como Ele é misericordioso. Veja a nossa completa gama de merchandise Divina Misericórdia.” Entre esses produtos conta-se um Terço de Nossa Senhora e um Terço da Divina Misericórdia (ambos “Deluxe”), bem como os Autocolantes da Divina Misericórdia para Janelas, e o Porta-Chaves da Divina Misericórdia (em oliveira). Mais recentemente, em 2016, o mesmo Diário de Notícias informava que um russo estava a comercializar “Ar Abençoado de Fátima” por três euros a lata, o que parece exagerado apenas se não tivermos em conta que, segundo o empresário Sergey Pankovets, o produto tem uma validade de 99 anos. Cerca de 2000 anos depois de terem sido expulsos, os vendilhões têm uma nova oportunidade. Nunca é tarde para uma reparação.


Fonte: Ricardo Araujo Pereira @ Visão

segunda-feira, abril 03, 2017

Frases - IV


"Achievement seems to be connected with action. Successful men and women keep moving. They make mistakes but they don’t quit."

   -  Conrad Hilton


sábado, abril 01, 2017

Indigentes de luxo

Logo na pré-história do jornalismo, a imprensa tomou-se de amores pela peculiar figura do indigente de luxo. Até o torrencial escritor Victor Hugo constatou, inconformado, a rendição dos jornalistas do século XIX francês perante essas figuras triunfais, sem fontes de rendimentos atribuíveis, a quem chamava "indigentes de luxo" entre outras coisas. "Os indigentes de luxo fulguram em manchetes de jornais", escreveu Hugo, que apesar do seu indisputado génio de romancista, não compreendia como se podia emprestar crédito e respeitabilidade a essa gente "que se utiliza das leis em falência" para somar o bem-estar à celebridade do momento. 

Felizmente passaram-se já 200 anos sobre esta horripilante fraqueza social. A inelutável marcha da civilização colocou os indigentes de luxo - estes, sim, ainda existem - no lugar devido. Nas mil vertentes tecnológicas e analógicas, com que o autor de "Os Miseráveis" nunca sonhou, a imprensa de hoje pode dedicar-se livremente a temas bem mais elevados em prol da informação, da consciencialização cívica dos seus seguidores e do bendito progresso da sociedade sem o qual, refiro-me ao bendito progresso,continuariam, sabe-se lá por quantos mais séculos, os párias de luxo a fulgurar em manchetes de jornais. E de telejornais. E até no cabo. Perdoem-me a despropositada evocação do que era moderno no velhíssimo século XIX e da incredulidade de um romancista perante as vénias com que ainda titubeante imprensa do seu tempo saudava aqueles que, "enjaulando nas próprias garras a justiça que os não alcança", petiscavam requintes de Estado sem nunca mexer uma palha. 


Passou-se na França de Victor Hugo, há 200 anos. Cá pelo nosso país, diga-se, nunca houve disto. Cá pelo nosso país o que vai haver, já esta noite, é um jogo de futebol, que se adivinha renhidíssimo, entre as duas equipas que lutam pela conquista do título de campeão nacional. Como assunto, com franqueza, também não é do outro mundo. Todos os anos desde que a prova existe, é disputado, mais ou menos por esta altura, um jogo renhidíssimo entre as equipas que discutem o troféu. Logo se verá quem ganha o jogo. E logo se verá se as fulgurantes manchetes da semana transata servirão para alguma coisa que possa, daqui a 200 anos, ser apontada às gerações vindouras como exemplo acabado de uma pré-história qualquer.



Fonte : Leonor Pinhão @ record


Quanto custou a brincadeira?

O FC Porto tem razão. O comunicado da Federação Portuguesa de Futebol sobre os graves acontecimentos de sábado passado no Estádio da Luz é absolutamente lamentável. Não por "não chamar os bois pelos nomes", como sugere o contracomunicado do FC Porto. 

Em boa verdade, os bois não são chamados para à lide neste caso. Mas se, no já citado contracomunicado do FC Porto, em vez de um protesto por a FPF "não chamar os bois pelo nome", surgisse um lamento, bilingue, por a FPF "não chamar os boys pelo nome", aí já tudo faria sentido e seria mais justa, mais esclarecida e até mais contundente a ação de censura que o FC Porto entendeu fazer ao comportamento inaceitável da FPF. 

Perante os factos consumados e as alegres cantorias, entendeu a FPF de Fernando Gomes vir a público esclarecer o país "que não formou um grupo organizado de adeptos" e que, não satisfeita com tamanho repúdio, "condena de forma inequívoca toda e qualquer tentativa de instrumentalização da seleção nacional, que é de todos". 

Então, cara FPF, e os "boys"? Como apareceram "os boys" em França a meio do Europeu dando razão aos jornais que avançavam com a sua contratação para animar as hostes, já que o hino encomendado ao Pedro Abrunhosa não entrava nos ouvidos da malta lusitana? E a que se referia, em código certamente, aquele pobre emigrante que, ufano, exibia os papelinhos na mão e gritava para todos os jornalistas que o quiseram ouvir: "Comprei 9 bilhetes ao Macaco! Comprei 9 bilhetes ao Macaco?" 

E, acontecimento mais fresco ainda: como apareceram tantos "boys" enjaulados pelas forças policiais no Estádio da Luz? Quem os mandou ir? E algum deles seria o patriótico "boy" que foi preso a meio da semana por suspeitas de corrupção e envolvimento na combinação de resultados de jogos? E, cara FPF, a polícia, sim, a polícia? Quem solicitou o reforço policial, o enquadramento da claque, o seu acompanhamento no percurso? Poderá um dia a FPF limpar-se deste lodaçal e esclarecer o vasto público que gosta de bola - da seleção - sobre a sua participação, ou conivência, neste episódio de contornos inqualificáveis? Ou da sua total inocência em que, face a todos os dados, custa muito a acreditar. Continuamos todos à espera de respostas. 

Quem pagou os serviços policiais para escoltar a macacada no jogo da seleção? Teremos sido nós, os contribuintes? Não, ninguém pode aceitar uma anormalidade tamanha. Mas se fomos nós, os contribuintes a pagar, seria da mais elementar ética republicana dizerem-nos quanto nos custou a brincadeira. E seria bom que o fizessem rapidamente. 



A multidão ou era de patriotas ou era de munícipes de Poiares  
Esta é a semana em que os sportinguistas podem ser do FC Porto à vontade. O presidente do Sporting, por exemplo, mal aterrou em Lisboa lançou insinuações sobre a "vida privada" do presidente do Benfica. 

A expressão "vida privada" na boca de Bruno de Carvalho é, aliás, coisa tão estrambólica como ver as Kardashians a ler a obra completa de Marcel Proust. Fez bem, no entanto, Carvalho em atirar-se a Vieira. Só assim passaria para um imperioso segundo plano o anúncio de que amanhã não vai a Arouca, falhando o reencontro com os Pinhos. Não é cobardia. Vai a Angola. 

Também o presidente da AG do Sporting contribuiu para que Arouca não fosse outra vez objeto de má- -língua. Sacrificou-se em prol do líder percorrendo a penantes o perímetro exterior do Estádio da Luz em noite de seleção ouvindo desabafos da multidão que ou era de patriotas doidos ou era de munícipes de Poiares picuinhas. Foi notícia de vulto, abafou Arouca, claro. A polícia pôs-se logo em cima do caso. Ainda bem.



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha