sábado, junho 24, 2017

Incentivo ao incentivo à leitura

Os textos que escrevo aqui na VISÃO são frequentemente incluídos em livros da disciplina de português do ensino secundário. É uma maneira excelente de pôr os alunos em contacto com escrita requintada e raciocínios sofisticados (1). Talvez um dia este mesmo texto venha a figurar num desses livros. Seria curioso: pela primeira vez, um texto incluído numa selecta escolar reflectiria acerca da circunstância de ser um texto incluído numa selecta escolar.

É uma espécie de mise en abyme (2) capaz de aborrecer alunos durante uns bons dez minutos de aula, ou até de lhes azucrinar a paciência num teste.

De vez em quando recebo chamadas telefónicas de jovens, filhos de amigos meus, que se encontram nesse momento a proceder à “análise e interpretação” de qualquer coisa escrita por mim. Costumam estar bastante indignados. Dizem que, se eu quero ser correctamente interpretado, deveria deixar-me de brincadeiras e escrever logo o que pretendo dizer, em vez de me pôr com figuras de estilo. Que começar frases com a palavra “que” excita nos professores a vontade de pedir uma análise sintáctica, e depois quem se lixa são eles. E que estão estafados de estudar estas estúpidas aliterações, por exemplo (3).

Ora, a culpa não é minha. Como calculam, eu nunca imaginei ser um TPC. Lamento profundamente que a vida se tenha desenrolado desta forma. É deplorável que milhares de estudantes tenham de me conhecer assim, entre uma estrofe d’Os Lusíadas e um excerto do Auto da Barca do Inferno – e que os seus professores os obriguem a dar-me a mesma atenção que eles dedicaram a Camões e Gil Vicente. Foi isso que me levou a escrever esta crónica cheia de anotações explicativas, para facilitar o trabalho dos alunos (4). Há um aspecto da minha obra que tanto alunos como professores devem manter presente: na maior parte das vezes eu escrevo estes textos em pijama. Todas as respostas de um teste ou trabalho de casa sobre mim devem incluir essa referência: “Nesta frase – que, muito provavelmente, o autor escreveu em pijama –, encontramos uma epanadiplose. (5)”  E sempre que um professor perguntar, a propósito de um texto meu, o que pretende realmente o autor, o aluno fica desde já credenciado para responder: “O autor pretende que este aluno tenha 5 a português. É a sua única ambição na vida.”(6) A sério.(7)


(1) Atenção: isto é bem capaz de ser ironia.
(2) Eis uma interessante expressão em estrangeiro cujo significado está disponível na Wikipedia. 
(3) Prometo parar prontamente com este tipo de proposição. 
(4) Cá está mais uma anotação bastante explicativa.
(5) É difícil encontrar uma epanadiplose numa frase minha, porque eu não sei bem o que uma epanadiplose é. 
(6) Não há aqui qualquer ironia.
(7) A sério.


Fonte : Ricardo Araujo Pereira @ Visão

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